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97º Sínodo Diocesano - «Do Batismo ao Discipulado - a Igreja em Missão»

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Alocução do Bispo Diocesano ao Sínodo - Mensagem do Sínodo Igreja Lusitana

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Alocução do Bispo Diocesano ao Sínodo

Cumpriram-se no passado dia 25 de Abril (dia de S. Marcos, Evangelista), cinco anos da minha sagração episcopal. Não sendo um período de tempo longo, no exercício de um episcopado, permite já contudo um olhar retrospetivo de balanço e de reflexão sobre o caminho percorrido. Como seria expectável, foi um tempo intenso e de múltiplas experiências, onde a tónica comum se centra na vivência e gestão de relações humanas as quais, por natureza, são sempre desafiantes e complexas. A poética imagem bíblica do bom pastor e do rebanho (S. João 10,7-20), pode iludir por vezes a natural tensão subjacente a qualquer grupo, comunidade e igreja. Com efeito, «cada pessoa é um mundo» e reconhecer e trabalhar com esta realidade torna-se um imperativo pastoral. Como alguém muito bem referiu, mais importante do que o resultado alcançado é o processo que leva a um determinado desempenho. E em Igreja, por natureza, o modo como fazemos deve assentar na relação humana, no encontro entre pessoas e no respeito pela natural diversidade existente. Sendo o bispo o pastor do rebanho é, por decorrência do seu ministério, chamado a estar e a relacionar-se com pessoas e comunidades concretas, cada uma vivendo as suas alegrias e tristezas mas todas ancoradas na pessoa de Jesus Cristo, o fundamento da Igreja. Este procurar estar e compreender as pessoas e acompanhá-las na sua circunstância própria, tem constituído sem dúvida uma das maiores exigências do meu episcopado e uma fonte de enriquecimento humano e espiritual.

Qualquer pastoral em Igreja tem que necessariamente partir desta base de disponibilidade para o encontro, para a partilha, para a escuta e para o estabelecer de novas relações humanas. Num ritmo diário muito atarefado e com pouco tempo para o encontro, percebe-se da parte de muitos e muitas a necessidade de serem acolhidos e escutados na sua singularidade. A essência do ser pessoa assenta no encontro e na comunhão e a essência da missão da Igreja, à luz do exemplo de Jesus Cristo, requer saber estar com disponibilidade e tempo para os outros. Por decorrência, esta exigência coloca-se em particular ao bispo e ao clero, ao pastor dos pastores e aos pastores dos diversos rebanhos. O que marca a qualidade do nosso ministério é e será sempre a qualidade do tempo que dedicamos aos outros, no construir de relações de verdadeira comunidade e amor. Aqui tenho aprendido como se torna importante uma boa gestão do tempo que Deus nos confia, sustentada na disciplina da organização pessoal, capaz de combinar o trabalho com o descanso, a oração com o compromisso e a vida individual com a coletiva. Acresce que a especificidade do ministério cristão requer que o nosso tempo seja tomado pelo tempo de Deus e que procuremos acolher, através da oração, o sustento que só Deus nos pode conferir para o nosso trabalho diário.

Sendo o bispo o pastor da diocese, enfrenta o grande e permanente desafio de saber conciliar os tempos necessários às diversas áreas do seu ministério. A natureza da sua função ministerial e as exigências administrativas e legais que decorrem do seu estatuto de primeiro responsável da Igreja, implicam uma grande versatilidade no desempenho de tarefas, por vezes muito diferentes entre si e que exigem naturais especificidades de desempenho. Dou graças a Deus pelo diversificado grupo de pessoas que me tem ajudado e assessorado na execução de múltiplas tarefas respeitantes a áreas muito diversas. Decorre daqui o grande desafio de saber delegar e de confiar a outros o que por eles pode ser (bem!) realizado e o desafio de priorizar áreas de intervenção de acordo com as oportunidades de Missão que vão surgindo. Delegar e priorizar exigem discernimento e confiança e também um constante desprendimento do adquirido, de forma a ousar novas formas de serviço. Cabe ainda aos diferentes órgãos de gestão da Igreja uma análise permanente e crítica do seu próprio funcionamento, para que este possa corresponder aos novos desafios e oportunidades que o evoluir do tempo sempre traz à Igreja que somos.

Cinco anos de episcopado permitem já ter uma visão do todo que constitui a diocese. Uma visão mais fina e aprofundada do que a inicial e, por consequência, mais realista. A realidade da Igreja, mesmo a de uma pequena Igreja como a nossa, é diversificada e abrange diferentes níveis complementares entre si. O ser da Igreja que somos e a sua influência não se confina à expressão numérica de uma qualquer comunidade e, muito menos, à simples soma aritmética do número de crentes ou do número de paróquias, embora e naturalmente este seja também importante. Com efeito, sendo a Igreja Lusitana uma Igreja histórica, as suas paróquias fazem já parte do tecido social que as rodeia, estabelecendo com este diversos laços e relações o que, sem dúvida, constitui uma oportunidade de missão. Por outro lado, a Igreja Lusitana tem um estatuto firmado na sociedade e no meio eclesial em Portugal, que a projeta para além de si mesma e que acarreta naturais responsabilidades e exigências a todos os seus membros e aos órgãos diretivos. Acresce que a sua pertença à grande família Anglicana lhe permite estar e dar o seu contributo em diversas instâncias e fóruns internacionais. O que nos identifica hoje só se percebe à luz desta comunhão, que exprime a catolicidade da Igreja que somos. A rede de relações internas e externas da Igreja Lusitana é muito grande e diversificada e poderemos afirmar que está em crescendo, com a nova frente de missão aberta pela Rede Lusófona da Comunhão Anglicana. O bispo e a Igreja têm naturalmente que se organizar em função deste exigente e novo quadro de representatividade e de missão, que ganhou expressão nestes últimos anos.

Ao longo deste tempo de episcopado, o contacto mais direto com a realidade das paróquias da Igreja permitiu confirmar debilidades já conhecidas e outras que se vieram a revelar, em particular no Arciprestado do Sul. Com efeito, e conforme será referido em proposta própria a ser apresentada ao Sínodo, há comunidades no Arciprestado do Sul que já não possuem estrutura paroquial mínima, dado o muito reduzido número de pessoas que as compõem. Acresce, também,que em outras paróquias deste Arciprestado se registaram alterações ao nível pastoral, com as naturais exigências que os tempos de transição sempre acarretam. A combinação destes dois fatores, acrescida da dispersão geográfica destas paróquias, tem trazido uma grande exigência ao desenvolvimento do trabalho de missão da Igreja no Arciprestado do Sul. Também a escassez de clero com disponibilidade e capacidade de trabalho (em termos de idade, formação, saúde) , não ajuda ao desenvolvimento e acompanhamento de novas formas de missão. A exigência deste quadro eclesial requer, então, o realismo do olhar da fé. Um olhar capaz de acolher a debilidade e a simplicidade e um olhar capaz de perceber, mesmo no pequeno número, a expressão sempre plena da presença do corpo de Cristo reunido. A simplicidade e a humildade de muitas celebrações realizadas neste contexto do Arciprestado do Sul têm constituído para mim um tempo de forte vivência eclesial, de ação de graças e de interpelação. Tenho sentido sempre a presença e ação do Espírito Santo, que nos confere a confiança necessária de que nos fala o salmista (Salmo 31,1). Emociono-me com os verdadeiros testemunhos de fé, de compromisso, de sacrifício e de amor à Igreja que muitos e muitas manifestam, e em particular os idosos e idosas das nossas paróquias. Desafiante e esperançoso tem sido também perceber como, mesmo na exigência deste quadro eclesial, o Espírito Santo não deixa de suscitar novas adesões à Igreja, novos sinais de esperança e de renovação, novos compromissos ministeriais e pastorais e novas visões de trabalho em sítios e locais que o nosso olhar terreno dava já como perdidos, mas que o nosso olhar da fé, sustentado no Espírito Santo, nos revela como novas e renovadas oportunidades de missão para Deus. A missão que queremos desenvolver requer, pois, a análise da realidade por muito penosa e exigente que esta se nos apresente e ainda o consequente tomar de decisões.

A realidade deste quadro como que naturalmente nos conduz à necessidade e exigência de um ministério episcopal sustentado na oração e na ação transformante do Espírito Santo. Se a missão é de Deus, cabe a Deus conduzir o nosso trabalho. Um axioma simples e lógico que esbarra muitas vezes no nosso excesso de ativismo e na dificuldade em deixar que Deus use a nossa liberdade para o cumprimento da Sua vontade e verdade. Este é, sem dúvida, o grande desafio que se coloca ao bispo e a cada crente e que consiste em fazer da oração o verdadeiro sustento da missão que somos chamados a cumprir. Individual e coletivamente, todos somos convocados enquanto povo de Deus a crescer na relação filial com o Pai e a entrar na intimidade vivida no seio da Trindade.

A oração é o meio e a porta para que tal aconteça e para que tudo se transforme. Hoje, na realidade da Igreja que somos e da missão a que somos chamados, temos que levar a oração a sério, se queremos que Deus nos transforme e que muitos outros sejam também por Ele transformados através do nosso testemunho. Torna-se assim fundamental que no concreto da nossa vida pessoal, da vida das nossas comunidades, das nossas Igrejas, das nossas famílias e em outros contextos, pequenos grupos se reúnam para orar e orando sejam transformados e transformadores. Eis aqui, por exemplo, um bom motivo e pretexto para abrir as portas do templo da Igreja à semana, ou abrir a nossa própria casa a outros, seja de dia ou à noite, através de um grupo que se reúna para orar e orando promova uma partilha de vida. Um grupo de crentes que, no poder da oração, coloque perante Deus os diversos ministérios da Igreja e ajude a Igreja a discernir os caminhos que deve percorrer. Na simplicidade da oração e no seu poder a Igreja tem um enorme potencial de crescimento e de renovação.

Apraz-me aqui registar a criação recente, nesta mesma catedral de S. Paulo, de um tempo diário de oração matinal na reaberta capela de S. Lázaro. Sequencialmente e em cada dia da semana, as diferentes paróquias, departamentos e responsáveis pastorais são colocados em oração perante Deus. Na igreja mãe que é a catedral, toda a diocese é colocada em oração perante o Senhor da Igreja. Confiamos que Deus não deixa nenhuma oração sem resposta (Mateus 7, 7-12) e abre-nos sempre, sempre, novas visões e modos de realizar o Seu plano para a Sua Igreja. Neste sentido, a recente novena de oração da Ascensão ao Pentecostes, integrada no «Venha o Teu Reino», constituiu um tempo novo e desafiante, que sabemos foi levado a sério por muitos e muitas e que não deixará de dar frutos. A este propósito o Sr. Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, referiu: «Durante onze dias e em mais de cem países, estivemos juntos em oração pelo terceiro ano consecutivo deste movimento que chamamos de «Venha o Teu Reino». Pedimos a Deus que derramasse o seu Espirito Santo no seu povo unido, para nos fortalecer na partilha do amor revolucionário de Jesus Cristo com os nossos amigos, famílias, comunidades e nações. Estou profundamente alegre pelo modo como Deus está tão poderosamente a trabalhar, através deste movimento global de oração. Quando nos unimos em oração somos já um sinal claro do Reino».

O desafio que se nos oferece hoje é o de valorizar e discernir os sinais do Reino entre nós, que na sua maioria são sempre sinais simples e discretos, colocados por Deus no seio da Igreja, das comunidades e do mundo. Não se trata tanto, e como hoje se diz, de termos «um pensamento e uma atitude positiva perante a vida», mas tão-somente de percebermos,nesses sinais e realidades, a presença amorosa de Deus que nunca nos esquece e sempre confia em nós. O olhar da fé que é capaz de discernir esses sinais (Lucas 12, 54-57), compromete-nos depois na ação de acarinhar e fazer crescer aquilo que se manifesta simples e discreto. Deste modo, vai crescendo em nós a confiança e o sentido de esperança que nos permitem levantar o olhar para o futuro que Deus nos oferece.

E é sobre este futuro, que parte da realidade presente, que o Sínodo da Igreja é chamado a orar, a refletir e a planear. O exercício da fé, que a todos se nos oferece, é o de entrarmos na visão que Deus tem para a Igreja Lusitana e para a sua missão e tal só é possível na ação do Espírito Santo em cada um de nós e na Igreja em geral. Internamente, percebemos como é tão importante continuar o caminho aberto pelo curso de educação na fé o Peregrino. Um caminho que tem sido de encontro, de partilha e de formação e no qual a vida é colocada perante o olhar da fé e esta é confrontada com os grandes temas da nossa existência. Percebemos também como é importante acarinhar e acolher as crianças e os jovens que constituem já a Igreja do amanhã. Também a necessidade que temos de abrir mais as nossas Igrejas e de as sinalizar para a comunidade, divulgando quem somos e o que fazemos para o bem de todos. Aperfeiçoar ainda o cuidado e a beleza das celebrações litúrgicas, para que a riqueza do seu simbolismo e da sua efetividade possa constituir para todos, e desde já, um antegozo do Reino de Deus. Aqui refiro necessariamente o aperfeiçoamento do louvor, conscientes da importância que a música e o canto possuem no expressar e viver da fé e no convocar ainda de novas pessoas para as comunidades. Também refiro o que já está acontecer nalgumas comunidades, com bons frutos, e que conjuga a oferta do pão com a oferta do alimento espiritual da Palavra de Deus (Mateus 4,4). Ou seja, a partilha daquilo que temos com os mais carenciados, leva-nos também a partilhar com eles a fé em Jesus Cristo e a sermos ao mesmo tempo interpelados e enriquecidos com a experiência de vida destes irmãos e irmãs que Deus nos apresenta, por vezes, de formas inesperadas. Numa Igreja de estrutura ministerial, o alimentar das vocações para o sacerdócio e a sua preparação para o exercício do ministério, constituem uma necessidade e um imperativo de trabalho que a Igreja tem que assumir nas suas diversas exigências. Por experiência, percebo agora que esta área em particular não é apenas uma responsabilidade do bispo que ordena, como muitos pensam, mas é também uma responsabilidade de toda a Igreja e de cada comunidade em particular. No modo como o povo de Deus ora pelas vocações para o ministério na Igreja e no modo como exerce o seu sensus fidelium, o discernir da fé, a Igreja será tanto mais ou menos abençoada com novos pastores para as comunidades. Não basta, pois, sentir a necessidade da Igreja ter mais pastores, é necessário que cada um se implique neste processo, através da oração, do discernimento e da palavra amiga e orientadora àqueles que Deus está a chamar para a Sua seara (Lucas 10,2).

No preparar do futuro, a Igreja Lusitana tem que perceber o contexto social e cultural no qual é chamada a desenvolver a sua missão. Para o bem e para o mal, temos todos hoje a consciência da profunda interdependência em que vivemos, seja na área política (União Europeia), financeira (sistema capitalista internacional), na do ambiente (alterações climáticas) ou na da comunicação (Internet). Mais do que nunca, interessa possuir uma «visão global para podermos agir localmente». Com as especificidades próprias do nosso país, grande parte das questões e desafios que se nos colocam são também vividos internacionalmente. É neste contexto, de uma sociedade global atravessada por desafios e esperanças comuns, que surge a proposta internacional do discipulado intencional, a ser assumida pela Igreja de Cristo na sua diversidade de tradições. Ela nasce da consciência da validade e atualidade da proposta cristã para a resolução dos problemas de hoje. A fé em Jesus Cristo confere-nos uma visão holística do mundo e da sociedade, capaz de interligar e propor novos caminhos para questões como a desigualdade económica e a pobreza, a corrupção e a falta de ética na política, as alterações climáticas e a crescente falta de sentido e de confiança para o futuro coletivo da humanidade. Assim sendo, e perante um conjunto de complexos desafios à escala mundial, as Igrejas percebem-se hoje convocadas por Deus para uma integração e intervenção mais concreta e efetiva na resolução dos problemas atuais e no construir de novos caminhos para a humanidade. Para tal o seu discipulado tem que ser intencional e concreto, e os cristãos devem assumir as implicações do seu batismo que os leva a um compromisso de discipulado nas diversas áreas da vida e ao longo desta. Trata-se de viver a fé enquanto dom, com implicações na família, nos estudos, na profissão, na vida social e em todas as áreas nas quais nos movemos e existimos. Não podemos ocultar aquilo que é para ser visível para todos (Lucas 8, 16-18) e não podemos dividir o que é para ser usufruído na sua totalidade. Neste sentido e abertura, o discipulado intencional não trata da sobrevivência da Igreja mas da efetiva necessidade da Igreja ser, desde já, um sinal do Reino de Deus no mundo em que vivemos. O mundo necessita da Igreja e a Igreja necessita de discípulos assumidos. O discipulado intencional compromete-nos, então, tanto na vida da Igreja como na vida em geral e, em particular, nas diversas áreas da nossa vida pessoal. O Evangelho de Jesus Cristo é verdadeiramente a boa noticia que deve ser vivida e partilhada com alegria através da palavra e dos atos concretos e intencionais. Tal transformará não só a Igreja que somos como o mundo em que vivemos.

Na minha qualidade de bispo e de pastor, considero esta visão, esta proposta e este caminho importantes para o concreto da Igreja que somos e que desejamos ser. Assumindo as nossas debilidades não deixamos de assumir também as nossas forças e capacidades, conjugando o tempo presente com o futuro de Deus. Para tal, cada um de nós, a começar pelo bispo, deve-se colocar em oração perante Deus, para que o Senhor nos ajude a um discipulado de vida mais assumido, consciente e capaz de tocar a vida de outros, não para nossa honra mas sim para honra e glória de Deus. Tal terá necessariamente implicações no nosso modo de estar individual e enquanto igreja. Uma mudança, se quisermos, de paradigma cultural eclesial, que se traduz numa igreja - que procura ir e não apenas estar; - aberta e não fechada;

- que procura crescer e ousar e não apenas manter;

- mais inclusiva e menos reservada;

- mais orante e espontânea na oração;

- mais profética e menos acomodada;

- que se prepara e equipa para a missão;

- mais intencional e menos rotineira;

- de discípulos e não apenas de batizados;

ou seja, uma igreja …. que se deixa guiar pelo Espírito Santo … e que acolhe a Sua novidade renovando-se por dentro, qual vasilhas novas capazes de acolher o vinho novo (Mateus 9, 14-17).

Volvidos cinco anos de episcopado, dou graças a Deus pelo modo como o Senhor me amparou e a Igreja me apoiou. Consciente da fragilidade do meu ministério, conforta-me e estimula-me estarmos em Sínodo, no apoio e incentivo uns aos outros e na oração recíproca. A razão de fecharmos um primeiro ciclo de cinco anos prende-se, somente, com a necessidade de olhar desde já para o futuro, não do bispo mas antes de uma Igreja sinodal, que se faz em conjunto ao caminho. E olhando juntos o futuro, sustentados na ação do Espírito Santo, mais profícuo será o nosso discipulado e testemunho. Esta é também a razão da proposta, que iremos debater, de nos integrarmos na década do discipulado intencional, que desde já nos ajuda a olhar com confiança para o futuro.

Assim Deus nos ajude!

Ámen.

+ Jorge

Vila Nova de Gaia, 28 de Maio de 2018

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Mensagem do Sínodo Igreja Lusitana

O 97º Sínodo da Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica reuniu-se na Catedral de S. Paulo, Lisboa, de 31 de Maio a 2 de Junho 2018, sob o lema «Do batismo ao discipulado; a Igreja em Missão», inspirado no mandamento de Jesus aos seus discípulos (Mt. 28,19-20).

O Sínodo é a reunião magna da Igreja e traduz a sua organização democrática, pelo que estiveram presentes os membros do clero, representantes leigos das paróquias da Igreja e dos diferentes órgãos diocesanos, todos com participação plena no processo de tomada de decisões e de definição das principais orientações estratégicas e de missão da Igreja para os próximos dois anos. Participaram também convidados, representando o Conselho Mundial de Igrejas, a Igreja Espanhola Reformada Episcopal, a Conferência das Igrejas Protestantes dos Países Latinos da Europa, para além de instituições portuguesas como as Igrejas Metodista e Presbiteriana e a Sociedade Bíblica de Portugal. O Senhor Arcebispo de Cantuária, metropolita da Igreja Lusitana, fez-se representar pelo Bispo Anthony Poggo, tendo estado também presente o Cónego John Kafwanka, diretor para a Missão da Comunhão Anglicana.

O Sínodo refletiu sobre as dificuldades e oportunidades que se colocam a uma Igreja pequena e minoritária, mas com uma singular capacidade de influência e ação que decorrem da sua inserção social mais que centenária e dos laços estabelecidos, quer dentro do país quer no exterior, no âmbito da sua pertença à grande família da Comunhão Anglicana.

O tema do Sínodo – passar do batismo a um discipulado intencional – foi aprofundado pelo Bispo Diocesano D. Jorge Pina Cabral, que na sua alocução reforçou que a resposta aos desafios – como o envelhecimento de algumas comunidades e a escassez de membros do clero para o desenvolvimento de novas áreas de missão – terá de ser encontrada na abertura à oração e à ação transformante do Espirito Santo, referindo que «... torna-se fundamental que no concreto da nossa vida pessoal, da vida das nossas comunidades, das nossas Igrejas, das nossas famílias e em outros contextos, pequenos grupos se reúnam para orar e orando sejam transformados e transformadores».

Como prioridades para o futuro o Bispo Diocesano reforçou, na sua intervenção, a formação na fé, o acolhimento das crianças e dos jovens, a abertura dos templos e a sua sinalização clara junto das comunidades envolventes, o cuidado colocado nas celebrações eucarísticas, a ação solidária pela oferta do pão material em conjugação com o pão espiritual e o alimentar de vocações para o sacerdócio.

O contexto cada vez mais global em que as igrejas são chamadas a viver a sua missão e o conjunto de complexos desafios que se colocam, requerem uma intervenção cada vez mais concreta e assumida dos crentes, num discipulado que terá de ser intencional e concreto. Este foi o tema da comunicação de um dos convidados, o Cónego John Kafwanka, co-editor de um importante guia sobre o discipulado intencional em contexto anglicano. Numa intervenção vigorosa e envolvente, Kafwanka lembrou as bases bíblicas do discipulado e a rutura que muitas vezes se observa entre a fé que se proclama e a experiência vivida por cada cristão no dia-a-dia. Na linha do compromisso assumido pelo Conselho Consultivo para a década do Discipulado Intencional (2016-2025), desafiando toda a Comunhão Anglicana para que cada pessoa, cada igreja e comunidade sejam moldadas à figura de Jesus, John Kafwanka incentivou todos e cada um, a todos os níveis, a testemunhar uma fé viva, comprometida e assente em diferenças efetivas e visíveis no quotidiano das famílias, dos contextos escolares ou laborais e não só no ambiente mais «protegido» das igrejas. Não se trata apenas de falar aos outros sobre Jesus, mas sim de viver Jesus em cada gesto, palavra e atitude.

O Discipulado Intencional também exprime a decisão, o planeamento e a provisão de meios que a Igreja deve assumir para que nos seus diversos níveis de intervenção – visão sobre a missão, estruturas, liturgia, oração e louvor, seleção e formação de ministros e líderes – promova a transformação de batizados em discípulos e faça destes verdadeiros «pescadores de homens» (Mc. 1, 17). Por outras palavras, como expressou o bispo lusitano, a assunção do discipulado intencional determinará «uma mudança de paradigma cultural eclesial, que se traduz numa igreja que procura ir e não apenas estar, aberta e não fechada, que procura crescer e ousar e não apenas manter, mais inclusiva e menos reservada, mais profética e menos acomodada, que se prepara e equipa para a missão».

Concretizando esta visão, o Sínodo aprovou por unanimidade uma proposta determinando que o foco no discipulado intencional esteja presente nas prioridades da Igreja ao longo da próxima década, mobilizando recursos próprios e materializando-se nas paróquias, nos departamentos e em todas as iniciativas de missão e formação. Tudo para que a Igreja Lusitana possa ser «uma igreja de discípulos e não apenas de batizados (…), uma igreja que se deixa guiar pelo Espírito Santo e que acolhe a Sua novidade renovando-se por dentro, como vasilha nova capaz de acolher o vinho novo» (Mateus 9, 17).

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