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O Evangelho de Mateus e o Discipulado (Capítulo 9, versículos 9-13)


Celebramos hoje a Festa de São Mateus. Apóstolo e Evangelista que nos acompanha no Ano Litúrgico A cada domingo, com excepção de alguns domingos do Tempo de Natal e da Páscoa.

Segundo a passagem que acabamos de ler, dedicava-se a cobrar impostos. Os cobradores de impostos eram vistos pelos seus compatriotas judeus como autênticos párias por serem colaboradores do invasor, cobrando, inclusivamente, mais impostos do que Roma determinava. Mas, o relato da vocação de Mateus sempre constituiu um problema para os exegetas e teólogos pois, Marcos, no seu evangelho (escrito dez anos antes), diz-nos que o cobrador de impostos chamado por Jesus tinha o nome de Levi e não Mateus. O mesmo nos diz Lucas, referindo Levi como o cobrador de impostos que “que deixou tudo, levantou-se e foi com Jesus” (Lc 5,28). Serão Mateus e Levi uma e a mesma pessoa? Ao contrário de Mateus, Marcos e Lucas apresentamnos Levi e Mateus como duas pessoas diferentes. Nunca vimos os nomes Mateus Levi ou Levi Mateus associados até porque são dois nomes judaicos e, normalmente, a associação de outro nome ao nome original de um judeu era de origem estrangeira (grega ou latina), levando a crer, de facto que são duas pessoas distintas.

O certo é que o cobrador de impostos, quem quer que ele seja, de imediato aceitou o convite especial de Jesus (nisso os três sinóticos estão de acordo) e “ele levantou-se e foi” (v. 9). Ou seja, a sua resposta ao chamamento de Jesus foi imediata, deixando tudo, renunciando, por isso, ao seu prestigioso emprego e às suas riquezas. Tal como os verdadeiros discípulos. Este convite de Jesus só pode ser comparado ao convite feito a outros apóstolos importantes – Pedro e André, Tiago e João. A todos eles, Jesus encontrou em momentos diferentes, mas encontros esses coincidentes em acções. E foram seis acções comuns. Jesus encontrou-os nas margens do mar de Tíberíades; Jesus ao passar aproximou-Se deles; Jesus viu que todos estavam ocupados; Jesus olhou para eles; Jesus propôs-lhes que O seguissem, levando-os a abandonar o que estavam a fazer; e, por fim, Jesus foi à casa deles.

O paralelismo destas situações significa, em linguagem bíblica, que Mateus, ou Levi (em Marcos e em Lucas) era, tal como os dois pares de irmãos, um verdadeiro discípulo de Jesus pelo favorecimento privilegiado do convite pessoal de Jesus. E isto, porque Jesus viu em Mateus algo para além do pecado, algo para além do pecador. Em contrapartida, este fez uma festa para Jesus e Seus apóstolos. E chamou os outros amigos e colegas cobradores para tomarem parte do banquete dos pecadores na busca da redenção, dosimperfeitos na busca da perfeição. Todos eles experimentaram o que é estar com Jesus. É isso, “não são os sãos que precisam de médico, mas sim os doentes”, dizia Jesus aos fariseus no v.12. É que Cristo, o Verbo feito carne, é o Salvador que veio para curar todos os males humanos. Esta figura do Filho de Deus está no âmago da teologia agostiniana, tendo-se Santo Agostinho, no seu livro “Confissões”, dirigido assim ao Senhor: “Tu és a medicina, eu sou a enfermidade; Tu és a misericórdia, eu sou a miséria” (X,28,39). Muitas vezes, as curas corporais que Cristo operava eram também sinal de um restabelecimento espiritual. Ele olhava a situação psicossomática dos que a Ele recorriam. Cristo não apenas curava a doença, mas oferecia o medicamento, ou seja, uma fé profunda.

Ainda voltando à questão Mateus/Levi se eles não são a mesma pessoa, por que motivo o Evangelho de Mateus, quando refere a vocação do cobrador de impostos sentado no seu posto de cobrança, lhe muda o nome e o chama de Mateus? Haverá uma razão? Levi, de facto, existiu, sendo natural de Cafarnaum. Isso o demonstram Marcos e Lucas, dizendo até que era filho de Alfeu, homem importante, com certeza. E não há dúvida de que Levi aceitou de imediato o convite de Jesus e se tornou um discípulo. Mas, após isso, desaparece da história para não mais ser mencionado em todo o NT. Por que razão terá desaparecido? Ter-se-á arrependido? Terá adoecido? O que é certo é que o autor deste Evangelho não achou por bem introduzir o seu nome, mas trocá-lo por alguém que, tendo também largado tudo para O servir, O acompanhou, esse sim, até ao fim. E o verdadeiro discípulo é o que nunca abandona o seu mestre, mantendo-se fiel até ao fim, quer haja ou não contratempos durante a sua caminhada.

Para além disso, a sua comunidade, que era de origem judaica, dava muita importância ao simbolismo advindo do significado dos nomes. E um dos temas centrais de todo o seu Evangelho é o do discipulado. Ou seja, o autor do Evangelho de Mateus tinha em cima da mesa a conjugação do significado do nome e o discipulado, pois não nos podemos esquecer da similitude da sonoridade do próprio nome Mateus (em grego: matháios), e da palavra “discípulo” (em grego: mathetés). Mais do que nenhum outro, o Evangelho de Mateus destaca a importância do ser discípulo de Jesus, que deve ser visto como exemplo e modelo. Ora, quem, pelo seu nome, melhor representava o projecto de discipulado?

Considerando, então, fundamental o tema do discipulado, Mateus põe a tónica no seu destaque, tanto nas palavras utilizadas, como na progressiva e sistemática melhoria da figura dos discípulos mostrando-os, ao contrário de Marcos, a uma luz positiva e favorável. Notemos que o Evangelho de Mateus é o sinótico que mais usa o termo “discípulo” (73 vezes) e o único que usa a expressão “fazer discípulo” bem como o que mais emprega o verbo “aprender”, que é o que um autêntico discípulo deve fazer. Não é, portanto, por acaso que nenhum outro livro do NT destaca tantos ensinamentos e pregações como este e, simultaneamente, é neste Evangelho que mais se vê sublinhado o ensino de Jesus na formação dos Seus discípulos.

Em 2016, o Conselho Consultivo Anglicano reconheceu formalmente a importância particular de um discipulado para toda a vida que reflicta as cinco Marcas da Missão e a necessidade da intencionalidade no ensino de novos discípulos. Desde então, todas as províncias, dioceses e igrejas foram convocadas para uma Jornada de Discipulado Intencional, com nove anos de duração, descrito como “Viver e Compartilhar uma Vida Moldada por Jesus”. Nós, na Igreja Lusitana, temos feito a nossa parte.

A própria estrutura do Evangelho de Mateus gira à volta de cinco grandes discursos pronunciados por Jesus, que são autênticos ensinos, autênticas catequeses, como que anunciando que a sua obra é, por excelência, dirigida ao aprendiz de discípulo. Basta lembrarmo-nos das Bem-aventuranças, que são a mais intensa mensagem de esperança para todos os que querem seguir Jesus na certeza de que n’Ele encontrarão a felicidade e a vida eterna.

E esta preocupação de Mateus com o discipulado foi, talvez, uma maneira de a sua comunidade se comprometer mais com uma vida cristã, preenchendo lacunas na sua formação e fomentando o interesse em aprender. Era preciso, pois, que os primeiros seguidores de Jesus se esforçassem, e isso Mateus conseguiu mostrar, incutindo-lhes o sentido de serem verdadeiros discípulos, ou seja, discípulos até ao fim.

Sei que não é fácil, pois, por vezes, as forças nos faltam e pensamos não conseguir prosseguir na nossa caminhada. Contudo, nunca estamos tão desanimados que não nos possamos erguer, nem tão frustrados que não possamos sonhar em continuar até ao fim. Prosseguir diariamente, apesar de todos os contratempos, é o que carateriza o verdadeiro discípulo de Jesus. É que, na vida, não basta começar, como Levi. É preciso terminar, como Mateus.

José Sequeira. V.N.Gaia, 21 de Setembro de 2022 – Festa de São Mateus

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