
Homilia 4.º Domingo da Quaresma - 2026
Domingo do doente
«Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo». Ámen
O Evangelho de hoje sobre a «cura de um cego de nascença» é rico na sua densidade humana de estados de alma e de sentimentos diversos conforme percebemos nesta leitura dialogada do Evangelho. O caminhar de Jesus foi feito com as pessoas e no meio das pessoas na sua situação concreta de vida. A sua boa nova é expressa através dos seus gestos, das suas curas, das suas palavras e parte sempre da vida e de um modo particular do sofrimento que a vida das pessoas carrega. A fé em Jesus Cristo nasce da vida e só se compreende inserida na vida. Neste sentido, a fé provem da graça de Deus que nos é concedida mediante os acontecimentos e as experiências que acontecem no dia a dia.
O caminhar de Jesus que o Evangelho nos apresenta é se quisermos uma perfeita ilustração também do nosso caminhar quaresmal hoje e do modo como Jesus se revela nas circunstâncias deste caminhar. Também nós hoje vivemos com pessoas e assumimos os dramas, as dores e o sofrimento que está em nós e que está nos outros. No decorrer desta quaresma tive já conhecimento de dois irmãos nossos, cuja vida ficou profundamente afetada, pela exigência da sua frágil condição humana e sofrimento; num um jovem adulto, o drama de um cancro inesperado e no outro um idoso a exigência de uma intervenção cirúrgica ao coração. O desafio da fé e da quaresma não se coloca só a estes dois irmãos, mas também à Igreja que somos no modo como se faz ou não presente nestas vidas sofridas. O desafio de estarmos perto. O desafio de escutarmos. O desafio de carregarmos o sofrimento do outro. O desafio de darmos as razões da nossa esperança mesmo e perante o sofrimento. O desafio da oração pelo outro na sua profunda necessidade.
Assim se deve viver a quaresma que percorremos; assumindo as nossas dores, mas também as dores dos outros, colocando-as todas e m oração perante Cristo Ressuscitado que caminha connosco. A riqueza da fé em Jesus Cristo, é a riqueza de uma relação pessoal que nos permite partilhar com Jesus, a nossa vida, o nosso sofrimento e o sofrimento dos outros. Muitas vezes, Jesus não nos tra a dor, mas confere um sentido ao nosso próprio sofrimento. A sua cura, a que poderemos chamar milagre é também de natureza espiritual o que traz sempre um conforto de alma que se reflete também por toda a pessoa. O salmista expressa bem a força, o poder e a presença de Deus connosco, na nossa doença ou sofrimento quando afirma no Salmo que hoje foi lido: «Ainda que tenha de passar por vales tenebrosos, não terei receio de nada, porque tu, Senhor, estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me segurança» (Salmo 23,4). O salmista ensina-nos que devemos em primeiro lugar colocar o nosso sofrimento e o dos outros perante Cristo. O Senhor acolhe a nossa necessidade e concede-nos a sua presença e a sua força, dado que «o poder de Cristo ressuscitado não mudou e ainda hoje ele nos traz saúde, vida, alegria e paz».
Através da oração, dos sacramentos e, do rito, da imposição das mãos e da unção, Deus continua a atuar. Dai a Igreja reservar sempre o 4.º Domingo da quaresma de um modo especial para os doentes. Neste caminhar quaresmal para a Cruz de Cristo, e no qual muitos e muitas carregam uma cruz bem pesada, todos os doentes são bem-vindos, sejam ou não da comunidade. Todos são bem-vindos a acolher a «unção interior do Santo Espírito» que unge o corpo, a mente e alma. A doença é mais do que um problema fisco. Muitas vezes podemos estar bem fisicamente, mas com problemas de carácter mental. Outras vezes a natureza da nossa doença pode ser de carácter espiritual no modo como estamos «amarrados» pelo pecado. Para Jesus que curou pessoas com problemas fsicos, mentais e espirituais, a pessoa humana é um todo que só se compreende na interligação das diversas dimensões que a constituem. A unção e a bênção que a Igreja administra na ação do Espírito Santo e em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, toma a pessoa na sua totalidade. Cada pessoa é amada por Jesus, ontem, hoje e amanhã. Jesus ama e acolhe cada pessoa na sua circunstância de vida própria.
Vir ao altar do Senhor, ajoelharmo-nos em humildade e confiarmos a Deus a nossa própria tribulação é em si mesmo uma atitude de fé e de profunda entrega e confiança a Deus. Não tenhamos dúvida de que o Senhor opera em nós e nós tal como o cego, ficamos a ver a vida e a nossa própria condição de uma outra maneira. Como que se abrem «os olhos do nosso coração», sem dúvida o milagre que todos necessitamos para que o nosso caminhar de vida ganhe em sentido e profundidade.
Para nós, que praticamos o rito da unção com o óleo consagrado e tocando – ungindo a pessoa, não deixa de ser muito ilustrativa a própria descrição do modo como Jesus realizou o milagre. O Evangelho diz-nos que Jesus enquadra a cura na sua afirmação: «Enquanto estiver neste mundo, sou a luz do mundo» (João 9,5). A Palavra antecede, enquadra e predispõe para o acto de cura em si mesmo. De seguida Jesus cuspiu no chão, fez com a saliva um pouco de lodo e chegou-o aos olhos do cego. Trata-se de um rito sacramental no modo como a matéria, neste caso o lodo e a saliva se tornam o «sinal visível de uma graça invisível». Neste gesto, neste aproximar, neste tocar percebemos a graça de Deus a atuar e a modificar a vida daquele homem e de tantos outros que queiram por ele ser tocados. Assim foi também com David quando Samuel «pegou no vaso de azeite e consagrou David como rei» (I Samuel 16,13) texto do Antigo Testamento que hoje foi lido.
Deixemo-nos, pois, ser tocados por Deus neste caminhar quaresmal.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen.
+ Jorge
