MbWay - 963 037 073  Facebook      

 
 
Text Here



Manter a humanidade perante a tentação do mal
Downlaod PDF
 

Homilia I Domingo da Quaresma 2022

«Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo».

«Cheio do Espírito Santo, (Jesus) voltou do rio Jordão. O Espírito conduziu-o para o deserto, onde esteve quarenta dias e foi tentado pelo Diabo» (S- Lucas 4,1)

O texto de S. Lucas neste primeiro domingo do caminhar quaresmal está carregado de fortes simbolismos e mensagens para a nossa vida.

O Espírito Santo não só, está com Jesus, como conduz Jesus para o deserto. Deste modo, Jesus não vai sozinho e quem lhe indica o deserto é o Espírito Santo. Cristo assume esta orientação de Deus Pai na ação do Espírito Santo. E fá-lo de livre e assumida vontade na fidelidade à obediência que sempre manifestará ao Pai até à morte e morte de cruz.

No deserto, Jesus está cheio do Espírito Santo como também nós, estamos no nosso caminhar de vida «cheios do Espírito Santo» desde o nosso batismo em Cristo. Estamos «cheios do Espírito Santo», mas muitas vezes esquecemo-nos desta presença amiga na nossa vida. Uma presença pessoal que nunca se impõe antes se nos propõe. Muitas vezes também e deliberadamente prescindimos da sua ação em nós. A diferença entre o atuar de Cristo e o nosso, não se encontra, pois, numa maior ou menor presença do Espírito Santo, mas antes no modo como nos deixamos ou não, conduzir por Deus na nossa vida. A expressão de S. Lucas «o Espírito conduziu-o para o deserto…» pressupõe a aceitação dessa orientação por parte de Jesus. Ou seja, Jesus livremente opta por um caminho que sabe que é exigente, mas que é necessário para o apurar da sua própria missão. Muitas vezes também nós assumimos caminhos difíceis e exigentes e a recompensa é o crescimento espiritual e humano que essas experiências nos possibilitam. Outras vezes, mesmo intuindo que deveríamos caminhar numa determinada direção de vida que Deus nos aponta, escolhemos atalhos que não nos conduzem a lado nenhum.

Tal como nós, também Jesus foi tentado no seu caminhar e por diversas vezes, inclusive na própria hora da morte: «Salvou os outros, que Se salve Ele mesmo, se é o Messias …»(Lucas 23,35) ou como nos diz o texto do Evangelho de hoje «o Diabo afastou-se dele até um tempo determinado». A tentação é algo de natural na vida e com a qual deveremos saber lidar. A vida é cheia de experiências e acontecimentos impensáveis e situações surpreendentes. Ser tentado não é pecado. Pecado é ceder à tentação ! E mais grave ainda é ceder várias vezes à mesma tentação. No deserto e por três vezes Jesus foi tentado e sustentou a sua resposta e resistência à tentação na própria Palavra de Deus, conforme ouvimos Jesus a dizer ao Diabo : «A Sagrada Escritura diz. Não se vive só de Pão». Também «A Escritura diz: adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás culto». E na terceira tentação Jesus responde ao Diabo dizendo : «Mas a Escritura também diz: «Não tentarás o Senhor teu Deus». Jesus sustenta-se, pois, na própria Palavra viva de Deus, no dizer de Deus e no próprio Deus para fazer frente à tentação. É esta comunhão íntima e espiritual que fortalece Jesus Cristo e lhe permite não só rejeitar a tentação como também prosseguir no caminho da vida. É esta vivência de comunhão íntima e espiritual com Deus que nesta Quaresma somos chamados a renovar através da leitura orante da Bíblia e através da oração individual e comunitária.

O que está em causa na tentação e no pecado não é tão só a realização de um ato moralmente condenável, mas antes o desvio de um caminhar que nos é proposto por Deus para a nossa própria realização e realização da família humana à qual pertencemos. Continuamos a caminhar sem dúvida, por nós mesmos, mas caminhamos à margem de Deus dado que fomos desviados pelo pecado cometido. Jesus no deserto foi tentado, mas soube ficar onde o Pai lhe pedia e desejava. Depois seguiu o seu caminho até Jerusalém caminho que também lhe era proposto pelo Pai na ação do Espírito Santo. É este caminho de vida que Cristo ressuscitado nos oferece. Se somos tentados como Cristo, também como Ele e unidos a Ele, podemos sair vencedores e ir caminhando passo a passo, dia a dia, na santificação que a todos se nos oferece. Tal requer também de cada um de nós a aceitação e o assumir da nossa fé em Jesus Cristo tal como S. Paulo nos diz hoje : « Se com os teus lábios confessas que Jesus é o Senhor e no teu coração acreditas que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo.»

A vivência no deserto de que nos fala o Evangelho de hoje é também uma imagem da nossa vida com as suas exigências, dificuldades, mas também possibilidades de realização e de amor. Jesus e neste início de quaresma, pede-nos que «lancemos um olhar profundo ao modo como estamos a viver.» No meio das múltiplas e por vezes sedutoras propostas que se nos oferecem, importa sempre discernir as que devemos rejeitar, para que o nosso caminho não se desvie do plano que Deus tem para cada um de nós.

O contexto de guerra a que estamos a assistir na Ucrânia e que a todos também nos afeta, faz desta vivência quaresmal uma vivência mais intensa quando confrontados com a morte, o sofrimento e a destruição provocados pela guerra. Esta guerra é a expressão plena da grandeza que o pecado humano pode atingir. É fruto de uma cultura de morte e de violência que vai germinando e muitas vezes alimentada por atos ou omissões deliberadas.

A força deste mal só pode ser enfrentada coletivamente na ação de homens e mulheres de boa vontade. Nesta Quaresma e em tempos de tanta exigência, Deus pede-nos também a exigência e o assumir de uma consciência individual e coletiva cada vez mais apurada, firme e sustentada na pessoa viva do Príncipe da Paz, Jesus Cristo. A violência e a morte geram também a tentação de mais violência e mais morte. O ódio gera a tentação de responder com mais ódio. A este propósito um padre Ortodoxo refere precisamente hoje, I domingo da quaresma, o seguinte: «De cada vez que somos confrontados com o mal, somos tentados pelo mal. E a principal tarefa de um cristão é fazer com que, em condições desumanas, nos mantenhamos humanos».

Que o nosso caminhar quaresmal nos sustente a todos a esperança reforçando o sentido da vida. Que a quaresma nos abra caminhos novos de vida e de amor e de humanidade.

«Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen.»

+ Jorge

Cookies user preferences
We use cookies to ensure you to get the best experience on our website. If you decline the use of cookies, this website may not function as expected.
Accept all
Decline all
Unknown
Unknown
Accept
Decline
Analytics
Tools used to analyze the data to measure the effectiveness of a website and to understand how it works.
Google Analytics
Accept
Decline
Save