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Homilia na Instituição do Cónego João Evangelista Hipólito
Catedral de S. Paulo, Lisboa, 29 de maio de 2021
«Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo». Amem
«As lágrimas são o meu alimento de dia e de noite, pois a toda a hora me perguntam: «Onde está o teu Deus?» (Salmo 42,4)
«Ó Deus, meu protetor! Porque te esqueceste de mim?» (Salmo 42,10)
 
Irmãos e irmãs em Cristo, o contexto pandémico do Covid 19 que a todos nos tem afetado há mais de um ano, como que tem constituído para nós, povo de Deus, uma verdadeira travessia do deserto que tem colocado à prova a nossa fidelidade e confiança em Deus, que o Salmista tão bem refere neste belíssimo Salmo 42. Com efeito, e desde o início desta pandemia, ruíram-se muitas das nossas seguranças diárias e o rumo a seguir tornou-se mais incerto e imprevisível. Voltámos a uma travessia do deserto, que por natureza, nos obriga a carregar apenas o essencial para o caminhar e está sujeita às adversidades do caminho, do tempo e de fatores externos que nunca verdadeiramente iremos dominar. Neste tempo que vivemos nada é tido como garantido e absoluto e em conjunto apercebemo-nos da nossa comum fragilidade humana e existencial e consequentemente da necessidade que temos uns dos outros.

 

Esta conjuntura existencial, implica naturalmente com a nossa própria fé e no modo como vivemos e expressamos a Igreja que queremos ser. Percebemos hoje, mais claramente, o que significa viver e celebrar uma fé encarnada. O nosso Deus, revelou-se plenamente na pessoa de Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, que fez da vida e principalmente das dificuldades e sofrimentos da vida, o lugar da sua revelação e mensagem. É, pois, nas circunstâncias exigentes da vida que hoje enfrentamos, que a nossa fé se deve exprimir e celebrar para conferir aos outros «as razões da nossa esperança». Mais do que nunca o mundo criado por Deus necessita da Igreja de Deus e esta necessita de discípulos comprometidos com Deus e com o mundo. A Igreja que soubermos ser e construir no tempo presente, determinará a Igreja que seremos amanhã, mas também e principalmente até, determinará o mundo de amanhã.
 
Deste modo, e assumindo a dimensão de uma fé encarnada, somos chamados a um olhar sereno e critico, sobre o caminhar da humanidade e das opções que, em nosso nome, estão a ser tomadas na área humanitária, das alterações climáticas e das políticas sociais e económicas seguidas pelos nossos políticos. Uma Igreja que se quer profética tem naturalmente que ter uma consciência apurada do contexto em que se insere e seus desafios. Ontem mesmo, o sr Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, em conjunto com outros líderes mundiais, afirmou que a distribuição justa das vacinas do Covid 19 é «um imperativo humanitário» e que nos cabe escolher se queremos o «nacionalismo das vacinas» ou a «solidariedade humana» que gera vida e preserva a própria vida. Por sua vez António Guterres, nosso compatriota e cristão assumido, no exercício do seu cargo de secretário geral das Nações Unidas referiu que «o mundo está perdido caso não exista uma união de forças entre os Estados para combater as alterações climáticas, afirmando ainda que a atual pandemia ilustra os danos provocados pela desunião».
 
Por sua vez, em Portugal, estamos uma vez mais confrontados com o crescimento da pobreza, quer no seio de famílias portuguesas quer no seio de famílias migrantes que buscam no nosso país, melhores condições de vida. Recentemente fomos confrontados com a realidade trágica da «nova escravatura» vivida em algumas explorações agrícolas no nosso país. Estas e outras realidades são difíceis de serem assumidas e reconhecidas por nós, mas importa que não desviemos o olhar e a atenção e procuremos ser e estar para os outros, na medida da sua concreta necessidade física, material e espiritual. Na passagem da carta aos Efésios que escutámos, S. Paulo diz-nos: «já não nos comportaremos como crianças que andam ao sabor do vento e das ondas …. mas proclamando a verdade com Amor, cresceremos em todos os sentidos para Cristo, que é a cabeça.» (Efésios 4,14 - 15). Somos chamados a uma maturidade e testemunho eclesial capaz de «navegar o mar do nosso tempo» e se algo de positivo nos tem trazido esta travessia no deserto no caminhar da pandemia, tem sido sem dúvida, um maior cuidado, responsabilidade e maturar das nossas decisões e opções. Percebemos que o tempo é precioso e que tudo está interligado e dependente. Ou seja, crescemos em maturidade!
 
Após o Sínodo da Igreja Lusitana, realizado em outubro passado, esta celebração hoje, volvidos já 7 meses, marca o reencontro da família diocesana da Igreja Lusitana. De lá para cá, vivemos experiências exigentes e inclusive as Igrejas voltaram a ter que encerrar. Diversos irmãos e irmãs foram infetados pelo Covid e outros houve que não resistiram à infeção. Fazemos hoje também memória das suas vidas de fé e de amor! Outros irmãos e irmãs fruto de circunstâncias diversas, não voltaram ainda ao seio das suas comunidades. Muitos estão marcados pelos efeitos da pandemia, que se traduzem em ansiedade, abatimento, fragilidade perante as circunstâncias e também em isolamento. Mais do que nunca importa ter também um trabalho pastoral individualizado e atento à necessidade concreta de cada um e de cada uma. Sei que as diversas comunidades se têm reorganizado e com solicitude cristã têm procurado estar junto dos mais necessitados. Tem sido extraordinário o apoio humano, material e alimentar que está a ser prestado aos diversos níveis da Igreja.
 

Encontramo-nos assim perante um tempo de novos desafios e novas oportunidades. Deveremos assumir novas formas de estar e de servir não procurando voltar ao «antigo normal». Tal requer o compromisso de todos. Jesus no Evangelho diz-nos: «A colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos. Peçam ao dono da seara que mande mais trabalhadores para a sua colheita». (Mateus 9,37-38). Não se trata apenas de vocações para o ministério ordenado, mas de chamamentos para os novos ministérios que os novos tempos que vivemos estão a solicitar. «Novos tempos – novos ministérios». Para que tal aconteça, temos «que pedir» ou seja, temos que orar. A oração humilde é a base do chamamento e do envio feito por Deus. Se por vezes nos lamentamos, seja da falta de vocações ou da falta de compromisso e de discipulado é também muitas vezes porque não temos orado suficientemente e com ardor ao «dono da seara». Se cada um de nós, hoje aqui presente, assumir esse compromisso; o compromisso de Orar para que neste Novo Tempo- Deus suscite - Novos ministérios que enfrentem os Novos desafios e sejam sustentados por Novos trabalhadores, muito irá mudar e mudar para melhor.

Dou graças a Deus hoje, pela vida de fé, de serviço e de ministério do Reverendo Cónego João Evangelista de Jesus Hipólito. Na diversidade de dons que Deus lhe concedeu e consequente diversidade de ministérios que exerce dentro e fora da Igreja, João Hipólito é a imagem do trabalhador que se foi adaptando às diversas solicitações e desafios que Deus e a vida lhe foram colocando no seu caminhar. Muitos, de fora da Igreja, não saberão o muito que ele faz na Igreja. E muitos, de dentro da Igreja, não saberão também o muito, que ele realiza fora da Igreja. Em todos os trabalhos realizados, dentro e fora da Igreja, há o elemento comum do serviço ao próximo e do amor e louvor a Deus. O seu serviço abrange áreas tão diversas com as do ensino universitário, da orientação académica de alunos, do apoio psicológico, do aconselhamento pastoral ao clero e pastores, do tratamento terapêutico de toxicodependentes, da celebração litúrgica e pregação, e muitas outras (que só Deus saberá)! Tem aliado assim o saber médico e clínico ao saber teológico e pastoral, o que lhe confere naturalmente uma visão holística da vida, de si e dos outros. Nos últimos anos a sua saúde têm-no obrigado a uma vivência diária sacrificial que só é verdadeiramente sustentada por uma forte fé interior e plena confiança em Deus. Na sua já provecta idade continua com uma agenda preenchida e estou certo com novas visões e projetos para realizar. Continua assim interiormente jovem e tal como o jovem Samuel que o texto nos falou, ele continua a escutar o chamamento de Deus e a saber dizer «fala Senhor, que o teu servo está a ouvir».
 
Refiro ainda que o Reverendo Cónego João Hipólito encontrou há cerca de 20 anos atrás, na Igreja Lusitana e na Comunhão Anglicana, a sua família eclesial após um percurso de fé feito na área das Igrejas Evangélicas e depois Reformadas. Volvido este tempo tem agora a Igreja Lusitana o privilégio de poder contar com a sua sabedoria e experiência para a função de Cónego desta Catedral de S. Paulo.
 
Tal como comecei esta homilia citando o salmista na sua dor e angústia, termino agora, citando-o também na sua esperança e confiança, que peço que seja também a nossa perante o futuro:

«Porque hei-de estar desanimado e preocupado? Quero confiar no Senhor e ainda o hei-de louvar; ele é o meu Deus e o meu Salvador» (Salmo 42,12)

Por tudo damos graças a Deus !
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
+ Jorge

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