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COMENTÁRIO BÍBLICO 
34º Domingo Comum – Ano B
21nov2021 

Jeremias 23,1-6; Salmo 93; Apocalipse 1,4b-8
 
S. João 18,33-37
33Pilatos tornou a entrar no Pretório, chamou a Jesus e perguntou-lhe: “És tu o Rei dos Judeus?” 34Respondeu Jesus: “Dizes tu isso por ti mesmo ou foram outros os que to disseram de mim?” 35Replicou Pilatos: “Porventura, sou eu judeu? A tua própria nação e os principais sacerdotes entregaram-te nas minhas mãos. Que fizeste?” 36Respondeu Jesus: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus súditos pelejariam, para não ser eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui.” 37Perguntou-lhe, pois, Pilatos: “Logo tu és rei?” Respondeu Jesus: “Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.”
 
1. No diálogo introdutório da descrição da sua missão, Moisés pergunta a Deus qual é o Seu nome. E Deus respondeu-lhe: “Eu Sou o que Sou”(Êxodo 3, 14-15).Uma das interpretações desta frase, com base na palavra hebraica usada, considera que o “Eu sou” não corresponde a uma mera existência, mas a uma presença viva e ativa, isto é, Eu sou aquele que estou sempre convosco para salvar-vos. Como no Novo Testamento, na sequência da Revelação, “Eu sou o Alfa e o Ómega (…), aquele que é, que era e que vem, o Todo-poderoso.” (Apocalipse 1, 8). Ou seja, a presença inefável de Deus, que não se pode exprimir por palavras, porque é transcendente e misterioso para o ser humano, mas verdadeiramente existente agindo na história do seu povo e na história humana. Portanto, um Rei do universo, como se Lhe refere o Salmo 47 “o Senhor Altíssimo é terrível é o grande rei sobre a terra inteira. (…) Deus é rei acima das nações, senta-se Deus no seu trono sagrado” (Salmo 47, 3 e 9)e como O descreve o Apóstolo Paulo, “Rei dos séculos, Deus incorruptível, invisível e único” (I Timóteo 1, 17). Do Antigo Testamento, até nós, a confiança suprema dum povo: “Deus está connosco” (Isaías 8, 10).
No Novo Testamento surge uma outra declaração sobre Deus. O Apóstolo S. João diz-nos claramente “Deus é amor” (I João 4, 8). E esta afirmação não decorre de uma teofania, mas de uma experiência de vida com Jesus de Nazaré iluminada pela luz da ressurreição. E explica como chegou a tal conclusão: “nós contemplamos e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. E nós temos reconhecido o amor de Deus por nós, e nele acreditamos.” (I João 4, 14-16). Então, podemos dizer que Deus, manifestado em Jesus Cristo, é aquele que está sempre connosco pronto a amar-nos. É essa a imagem que o Evangelho nos transmite de Deus na medida em que nos deixamos tomar pela fé no Seu Filho, Jesus Cristo, como nosso Senhor e Salvador. O que, aliás, S. Paulo confirma ao dizer que “o mistério da vontade de Deus (…) é a de em Cristo encabeçar todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Efésios 1, 9-10). Chegamos assim ao Cristo Rei do Universo. Mas que Rei é esse?
 
2. No nosso imaginário, o Rei advém do seu nascimento ou de uma tomada de poder pela força. Adquire autoridade e poder absolutos, isto é, a sua vontade está acima de qualquer e de todos os seus súbditos, e é a expressão da sua nação. Tem exércitos e comanda-os nas batalhas. O seu reinado é temporal – os anos em que reinou – e o seu poder e glória passa para outrem com a sua morte. É o que nos ficou da história das monarquias absolutas. Ora, tudo isto é o que de mais estranho se pode ‘ver’ em Jesus. Nasceu desconhecido, no seio de uma família pobre de Nazaré, e nEle “se manifestou a amabilidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pelos homens” (Anselmo Borges). Apercebeu-se da Sua filiação divina e chamou a Deus “abba Pai”, mas não reivindicou o título senhorial, antes, apresentou-se como o que serve (S. João 13, 1-15). Viveu em amor e fraternidade (S. João 13, 34-35); ofereceu perdão e paz àqueles que conscientes do seu pecado dEle se abeiraram (S. João 4, 1-29; S. Lucas 19, 1-10); e com a palavra “a tua fé te salvou” promoveu liberdade e dignidade entre os que a vida tinha aprisionado em enfermidades ou destinos. Em vez de um palácio para viver e se afirmar perante o povo, Jesus confessou “O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (S. Mateus 8, 20); em lugar de um trono para se sentar e afirmar a autoridade, Jesus aceitou o sacrifício da cruz onde, com os braços abertos, alcança toda a humanidade em dádiva e misericórdia, “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (S. Lucas 23, 34). Ou seja, verdadeiramente um Rei, mas com um Reino que “não é deste mundo”.        
 
3. Ao contrário dos Reis e seus reinados onde o que vale é o poder, Jesus apresenta a sua missão real fundada no “testemunho da verdade”. Mas, o que é isto? Até o próprio Pilatos o questiona: “Que é a verdade?”. Ora, a profecia de Jeremias deste Domingo fala-nos num rei que o Senhor levantará e que “reinará e agirá com inteligência e exercerá na terra o direito e a justiça. (…) Este é o nome com que o chamarão: ‘Senhor, justiça nossa.’” (Jeremias 23, 5-6) A palavra hebraica traduzida por justiça inclui as ideias de retidão e justiça, salvação e libertação. E a exegese cristã liga este oráculo à vinda de Jesus. Então, testemunhar a verdade é “introduzir o amor e a justiça de Deus na história e no coração dos homens” (Pe. Vitor Gonçalves). No que nos diz respeito, aos que assumimos a nossa fé no Deus de Jesus Cristo, testemunhar a verdade é assumir um propósito maior para a nossa existência, um compromisso de retidão e justiça misericordiosa que transforma a nossa vida numa existência feliz e sem medo, que nenhuma morte pode reduzir ao nada. Assim, ao descobrir verdadeiramente o quanto Jesus é Rei – no ‘domínio’ do amor e serviço – somos chamados a ser súbditos do Seu reino na bondade com que nos aceitamos uns aos outros e na retidão e justiça com que nos damos a quem por necessidade demanda a nossa ajuda. Numa palavra, tendo Jesus por Rei passamos a ser testemunhas dum amor pleno que nos transforma e nos torna aptos para ser arautos da esperança.

+ Fernando
Bispo emérito da Igreja Lusitana

 
 
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