MbWay - 963 037 073  Facebook      

 
 
Text Here

Download PDF

COMENTÁRIO BÍBLICO 
27º Domingo Comum – Ano B
3out2021 

Génesis 2,18-24, Salmo 128; Hebreus 1,1-4.2,9-11
 
S. Marcos 10,2-16 
2Chegaram alguns fariseus e, para o experimentarem, perguntaram-lhe se era lícito a um homem repudiar sua mulher. 3Ele respondeu: Que vos ordenou Moisés? 4Replicaram eles: Moisés permitiu dar carta de divórcio e repudiar a mulher. 5Mas Jesus lhes disse: Pela dureza do vosso coração, ele vos deixou escrito este mandamento. 6Porém, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher; 7por essa razão, o homem deixará a seu pai e a sua mãe 8e será com sua mulher uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. 10Em casa, os discípulos, de novo, o interrogaram sobre isso. 11Ele respondeu: Aquele que repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério contra a primeira; 12e, se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério.
13 Então, lhe traziam alguns meninos para que os tocasse; os discípulos repreenderam aos que os trouxeram. 14Mas Jesus, vendo isso, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir a mim os meninos, não os impeçais, porque dos tais é o reino de Deus. 15Em verdade vos digo: Aquele que não receber o reino de Deus como menino de modo algum entrará nele. 16Abraçando os meninos, os abençoava, pondo as mãos sobre eles.

1. Normalmente as versões bíblicas intitulam a primeira parte do Evangelho de hoje como “discussão sobre o divórcio”. Mas, não há nada de mais equívoco, pois, a questão do divórcio no judaísmo daquele tempo era bem distinta daquela que se levanta no nosso tempo. Na verdade, os fariseus não perguntaram a Jesus se estava ou não de acordo com o divórcio. Questionaram-nO tão só sobre “se era lícito a um homem repudiar sua mulher.”E apresentavam como fundamento que “Moisés permitiu dar carta de divórcio e repudiar a mulher.”Era, portanto, do normativo societário do tempo aceitar o direito ao divórcio por parte dos homens. Realmente, naquele tempo, na prática, o direito a divorciar-se era em exclusivo do homem. Havia algumas exceções em que a mulher podia pedir o divórcio, mas, além de escassas eram de muito difícil aplicação (José Mª Castillo). Ou seja, a pergunta apresentada pelos fariseus a Jesus tinha subjacente não o divórcio, em si, mas, a questão dos quase ilimitados privilégios do homem sobre a mulher, como advogava, na altura, a escola teológica do rabino Hillel. Afinal, o que eles queriam saber era o que Jesus pensava sobre aquele posicionamento teológico que, no contexto do casamento, concedia a exclusividade da declaração de divórcio ao homem. Por outras palavras, aquela pergunta tinha subjacente a questão da desigualdade de direitos entre o homem e a mulher.  

2. Para responder aos fariseus, Jesus recorre ao projeto original do Criador: “desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher; por essa razão, o homem deixará a seu pai e a sua mãe e será com sua mulher uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne.”Com esta explicação Jesus ensina que o homem e a mulher, porque “obra” dum mesmo Criador, apresentam-se – e têm de ser vistos – como uma unidade criada que fundamenta uma perfeita igualdade em dignidade e direitos, embora sejam patentes as suas diferenças. Como alguém afirmou “a diferença é um facto; a igualdade é um direito”. E declara o que se ouve com solenidade nas cerimónias de casamento religioso: “o que Deus ajuntou não o separe o homem”. Ou seja, o que Deus ajuntou (homem e mulher) em igualdade e em dignidade não pode ser separado por interesses ínvios de poder e submissão. Podemos, então, concluir que o Evangelho de Jesus Cristo não aceita (é contra) a desigualdade de direitos entre homem e mulher e, em particular, quando assumem o compromisso de um projeto conjunto de amor na busca de felicidade. E isto é tão importante para Jesus que, interrogado pelos seus discípulos, repete: “Aquele que repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério contra a primeira; e, se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério”. Quer dizer, marido e mulher são iguais no direito de repúdio e também iguais na pena da lei, se aplicável.
Entendamos, para Jesus esta questão da igualdade entre géneros e, especificamente, entre marido e mulher não é somente de ordem jurídica, do lícito ou ilícito, do dever, mas, também da essência e do caminho da vida. No rito do casamento da Igreja Lusitana (Livro de Liturgia, página 265) explica-se que “o casamento entre homem e mulher é um dom de Deus na criação, e um meio da sua graça, um santo mistério”, pelo que o que o rege tem de provir duma outra “instância”, do amor entre duas pessoas que se dispõem a caminhar na ambiência da conversão. Ou seja, essa estrada, por vezes muito esburacada, para ser calcorreada sem acidentes, precisa duma sensibilidade fina, duma humildade sábia e duma paciência infinda. E tais ingredientes só se conseguem com o encontro íntimo, aberto e sincero com Jesus Cristo, porque Ele é “o caminho, e a verdade e a vida” (S. João 14,6).  

3. Dois apontamentos.
O primeiro. Jesus sabia muito bem o quanto naquele contexto religioso a mulher era segregada e violentamente diminuída na sua dignidade. Por isso, explica, com preocupação pedagógica, que a regra que se lê em Deuteronómio 24,1-4 apenas foi escrita “pela dureza do vosso coração”. Ou seja, Jesus disse-lhes (e a nós também) que nem toda a Lei que nos é apresentada nas Escrituras é expressão da vontade de Deus. Pode muito bem, antes, ter seguido os ditames dadureza do coração humano, isto é, os seus preconceitos e esquemas pensantes e interesseiros.

O segundo apontamento. Um grupo de fariseus foram encontrar-se com Jesus com o propósito de O experimentar, pôr à prova. Outros foram os que procuraram encontrar-se com Ele para saber quem era (Nicodemos – S. João 3, 1-21, os discípulos de João Batista – S. João 1, 35-39); para Lhe pedir o milagre (o centurião romano – S. Mateus 8, 5-13; a mulher cananeia – S. Mateus 15, 22-28;Jairo, pela sua filha- S. Mateus 9,18); para O prender (os guardas no Getsémani – S. Marcos 14, 43-46). Isto é, todos os que iam ao encontro de Jesus tinham motivações diversas, intentos vários. E, nós, quando O procuramos que motivo nos move a ir ao Seu encontro? Queremos encontrá-Lo para nos convertermos? Para nos deixarmos transformar pela Sua disponibilidade e pela Sua misericórdia? Para descobrirmos o caminho da nossa libertação interior (esquecimento de nós mesmos) que nos prepara para sermos para os outros? Ou, somente vamos a Ele para lhe pedirmos o milagre, embora legítimo? 

+ Fernando 
Bispo Emérito da Igreja Lusitana

 
 
Cookies user preferences
We use cookies to ensure you to get the best experience on our website. If you decline the use of cookies, this website may not function as expected.
Accept all
Decline all
Unknown
Unknown
Accept
Decline
Analytics
Tools used to analyze the data to measure the effectiveness of a website and to understand how it works.
Google Analytics
Accept
Decline
Save