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COMENTÁRIO BÍBLICO
2º. Domingo depois Páscoa – Ano B
18abril2021

Atos 3,12-19; Salmo 4; 1 João 3,1-7

S. Lucas 24,35-48
35Os dois que vieram de Emaús contaram-lhes então o que lhes acontecera pelo caminho, e como o tinham reconhecido no partir do pão.
36Estavam a descrever estas coisas, quando Jesus apareceu no meio deles e disse: «A paz esteja convosco.» 37Assustaram-se e ficaram cheios de medo, porque pensavam que era um fantasma. 38Mas Jesus tranquilizou-os dizendo: «Por que é que se assustam, e por que têm tantas dúvidas a meu respeito? 39Olhem para as minhas mãos e para os meus pés. Sou eu mesmo. Toquem-me e vejam, porque um espírito não tem carne nem ossos, como veem que eu tenho.» 40Ao dizer isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41Mas até lhes custava a acreditar, tão cheios de alegria e de admiração eles estavam. Então Jesus perguntou-lhes: «Têm aqui alguma coisa para comer?» 42Deram-lhe uma posta de peixe assado, 43que comeu à vista deles.
44Jesus acrescentou ainda: «O que eu vos tinha dito, quando andávamos juntos, é que tudo o que estava escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos livros dos profetas e nos Salmos, tinha de se cumprir.» 45Depois abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras 46e disse-lhes: «É assim que está escrito: que o Messias tinha de morrer, que ao terceiro dia havia de ressuscitar dos mortos 47e que em seu nome se havia de pregar a mensagem sobre o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando em Jerusalém. 48São vocês as testemunhas de tudo isto.

1. Jesus ressuscitado, com uma corporalidade distinta da anterior que os confunde (“aparece” e “desaparece” e até chega a parecer-lhes um “fantasma”) mostra-se aos discípulos com um discurso e atos bem humanos. Aceita e compreende a surpresa, o medo e as suas dúvidas, diz-lhes que vejam e toquem as Suas mãos e os Seus pés, come com eles o mesmo alimento que os sustenta, deixa que O reconheçam no partir do pão, e espicaça a humanidade de Pedro, confrontando-o com a sua tripla negação. Explica-lhes as Escrituras e, na Sua mansidão e humildade de coração, enleva-os com «a paz seja convosco!». É isto que os convence e os faz declarar ser testemunhas da Ressurreição (Atos 2,32 e 3,15).
Ora, este é o desafio da nossa fé: viver o Cristo ressurreto nas circunstâncias da nossa existência humana. Olhá-Lo no interior da nossa alma e ‘fazê-Lo’ presente nos diversos contextos da nossa vida quotidiana. Sabê-Lo connosco para que O vivamos, humano, em cada ato da nossa existência e, em particular, na nossa relação com os outros. É que, do que nos apercebemos dos escritos do Novo Testamento, ali o amor é humano. Isto é, o amor entre os casados, o amor dos pais aos filhos e destes aos pais, o amor fraternal entre irmãos e amigos e, até, o amor aos inimigos. E, então, o amor a Deus?! O Apóstolo S. João responde com clareza a esta pergunta: «aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.» (I João 4, 20). O amor a Deus decorre do modo como praticamos o amor humano ao outro, ao próximo. Ou seja, esta é a medida com que somos aferidos no processo do amor a Deus (S. Mateus 25, 31-43). E, se quisermos ir mais longe neste raciocínio, conseguimos perceber que aquele é o critério de avaliação do nosso nível de espiritualidade.

2. Uma palavra emerge hoje tanto da leitura dos Atos como do Evangelho: testemunhas. Uma testemunha é alguém que, relatando o que viu ou ouviu, confirma a verdade sobre um facto ou alguma coisa. É um(a) espectador(a) ou um ator ou atriz dum episódio de vida. Os Apóstolos, quando instados a discursar perante quem estivesse interessado em escutá-los, repetiam a palavra com coragem e compromisso testemunhando Jesus, que sofreu e morreu por todos e venceu a morte trazendo a vida em plenitude ao mundo. E, com base nas suas experiências de vida, testemunhavam que todos podem acolher Jesus e viver ressuscitados.
É assim, também, na história de vida de cada um(a) feita de testemunhos de episódios que marcaram a sua caminhada. Os mais velhos gostam de contá-los aos mais novos, fazendo presentes os passos do passado que os fizeram sonhar e empolgar, e lhes trouxeram significado às suas vidas. Mas, e se as nossas vidas mudarem em consequência da pandemia por que estamos a passar? Dela, dizem os especialistas de saúde mental, estamos a ser afetados por três fatores que podem alterar substancialmente o nosso presente e futuro. A noção de “perda” (de entes queridos, de meios de subsistência, de potenciais futuros imaginados e, pior, a perda de uma vida como outrora era conhecida), a “incerteza” (que, a prolongar-se sem um fim à vista, pode ter consequências psicológicas e físicas que podem alterar para sempre não só quem somos mas também a vida que imaginámos vir a ter), o “isolamento” (que nos obriga a mantermo-nos afastados até dos que mais amamos que pode levar ao sentimento profundamente triste da não-pertença). Em jeito de conclusão, uma psicoterapeuta norte-americana afirma[i]que, entre outras consequências das medidas para travar o contágio pandémico, estamos a correr o risco de nos tornarmos “não-pessoas” numa sociedade que, crescentemente, parece estar a ficar “desumanizada”.  Ora, é nesta “outra” realidade societária que podemos ser luzeiros de episódios de vida onde Jesus encarnou em liberdade e esperança, dando, assim, testemunho d’Ele em tudo o que de bom e verdadeiro vivenciamos.                     

3. “Aleluia! Aleluia!”, gritámos nós a nossa alegria pela Ressurreição do Senhor. Entretanto, em Timor e em Moçambique (Cabo Delgado), por essa altura, as gentes viveram literalmente o tempo da Paixão e Morte. Seja por causas naturais, seja pela maldade humana, o certo é que as pessoas sofreram e continuam a sofrer até à míngua o seu “fado” sem saberem porquê. Há, realmente, outras partes do mundo que vivem este mesmo cenário, mas Timor e Moçambique têm um outro significado para nós, pelo que nessas terras deixámos e pelos filhos dessas terras que tanto se esforçaram para alcançar a sua independência. Para lá das distâncias geográficas que nos separam sentimos uma proximidade que nos leva a olhar para aquelas gentes de um outro modo, como irmãos e irmãs, todos filhos de um passado comum. Por isso, importa que, na continuidade do tempo pascal que estamos a viver, partilhemos com aquelas gentes os sinais da Ressurreição que tanto nos alegra. Estão aí as diversas maneiras de fazê-lo, no contacto com o Pedro Soares, para Timor, e com o centro diocesano da Igreja Lusitana, para Moçambique. E, porventura, cada um(a) ouvirá a voz do ressuscitado: “Paz seja contigo!”.

+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana

[i] “Um ano depois, quem somos hoje e quem seremos amanhã?”, Helena Oliveira, VER, 19mar2021
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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