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17º Domingo Comum - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 24/7/2022

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COMENTÁRIO BÍBLICO 
17º Domingo Comum - Ano C
24jul2022

2 Reis 5,1-15ª; Salmo 21,2-8; Colossenses 2,6-15
 
S. Lucas 11,1-13
1Uma vez estava Jesus a orar num certo lugar. Quando acabou, um dos seus discípulos pediu-lhe: «Senhor, ensina-nos a orar, como João Batista ensinou os seus discípulos.» 2Jesus disse-lhes então: «Quando orarem digam assim:
Pai, santificado seja o teu nome.
Venha o teu reino.
3Dá-nos cada dia o pão de que precisamos.
4Perdoa as nossas ofensas, pois nós também perdoamos a todos os que nos ofendem.
E não nos deixes cair em tentação.»
5E prosseguiu: «Suponham que têm de ir a casa de um amigo à meia-noite e lhe pedem: “Empresta-me três pães, 6porque me apareceu em casa um amigo que vem de viagem e eu não tenho nada para lhe dar.” 7Ora imaginem que o outro grita lá de dentro: “Não me incomodes! A porta já está fechada; os meus filhos e eu já estamos na cama. Não posso levantar-me para te dar os pães.”»
8Jesus acrescentou: «Pois digo-vos: ainda que ele não se queira levantar para lhe dar os pães, acaba por levantar-se e dar-lhe tudo o que for preciso, não por ser seu amigo, mas para não ser mais incomodado. 9Por isso vos digo: Peçam, que vos será dado; procurem, que hão-de encontrar; batam à porta e ela há-de abrir-se. 10Pois o que pede recebe, o que procura encontra e a quem bate à porta esta se abrirá. 11Alguém que seja pai será capaz de dar ao filho uma cobra, se ele pedir um peixe, 12ou um escorpião, se pedir um ovo? 13Ora se, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem!»
 
1. O Pai-nosso em S. Lucas é bem mais curto do que em S. Mateus (6, 9-13). Começa com a invocação Pai, santificado seja o teu nome” e continua com quatro pedidos:
“Venha o teu reino” – a vivência espiritual que caracteriza quem crê no Pai como criador de tudo e de todos, um modo de estar que determina (devia determinar) a nossa existência na relação com Deus, com a nossa vida, com os outros e com a natureza de que somos parte;
“Dá-nos cada dia o pão de que precisamos”– o desejo de sobrevivência do ser humano que lembra o pedido do povo de Israel no deserto por pão, que foi dado a cada um em forma de codornizes e maná de tal maneira que “cada um tinha apanhado o quanto podia comer” (Êxodo 16, 1-35);
Perdoa as nossas ofensas, pois nós também perdoamos a todos os que nos ofendem” – o reconhecimento da nossa fragilidade perante Deus e da Sua bondade para connosco, um pedido subordinado à afirmação da nossa misericórdia para com aqueles que nos ofendem;
“E não nos deixes cair em tentação” – a confissão de que podemos ser sujeitos no nosso interior a algo que nos instiga a fazer o mal.
Numa palavra, o resumo da nossa vida e dos requisitos para que nela que se manifeste o sentimento profundo de gratidão pelo Deus que nos ama.

2. No Evangelho de hoje, após ter estado a orar, Jesus foi solicitado pelos discípulos para que lhes ensinasse a orar. Sim, embora nos pareça estranho, o certo é que ninguém nasce cristão, tem de ser ensinado. O mesmo relativamente à oração. É um ato que se aprende praticando-o à medida dos nossos desejos. Não é só pedir. É assim como alargar o horizonte do nosso olhar ao limite da esperança.
Nos quatro evangelhos está bem referenciada a oração de Jesus, frequente, em determinados momentos e lugares, em particular no alto dos montes, e sempre só. Orar é essencialmente um ato de solidão positiva, de encontro connosco próprios e com Deus. Podemos orar nos momentos litúrgicos, na ambiência comunitária da Igreja a que pertencemos, mas a oração mais profunda e, porventura sem palavras, é que se expressa na relação de confiança plena no Deus que sabemos que nos ama e escuta, o momento de deixar falar o coração. Nesse sentido, S. Pedro recomenda aos jovens daquele tempo: “Confiai-lhe (a Deus)todas as preocupações, porque Ele cuida de vós.” (I Pedro 5,7). Assim, na oração se descobre o instrumento equilibrador das diversas nuances da nossa vida. E, no entanto, ouve-se tantas vezes e em tantas vozes “não tenho tempo”, “não sei o que dizer”, “Deus não me ouve”, “quantas vezes pedi isto ou aquilo e Deus não me respondeu”. E assim se vão amontoando razões para o esmorecimento – senão o desaparecimento – da oração na nossa vida. E a estes, Jesus convida: “Vinde ter comigo todos os que andais cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. Juntai-vos a mim e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, pois os deveres que eu vos imponho são agradáveis e os meus fardos são leves.” (S. Mateus 11, 29-30).

3. Porém, sabemos que nem sempre é fácil ‘pedir’. Refiro-me aos pedidos que por vezes temos de fazer a pessoas amigas, ou familiares ou de relações próximas. É que, antes de tudo, pedir é uma atitude de humildade. E esta, por sua vez, é entendida como uma inferioridade em relação a quem se pede. Isto é, pedir alguma coisa a alguém deixa-nos na boca um travo de fraqueza que as mais das vezes nos dói. Na verdade, só pede quem precisa. E, no entanto, Jesus recomendou aos seus discípulos “pedi, pedi sempre!”. Fê-lo através de uma parábola em que alguém pede ajuda de modo tão incomodativo que o potencial ajudador vê-se ‘obrigado’ a satisfazer o pedido, para se livrar de tal incómodo. Ora, aqui, atrevo-me a considerar que Jesus usa de uma estratégia para levar o ‘ser pedinte’ ao que está subjacente no pedir: ‘ser humilde’. Essa condição foi realçada no Cântico de Maria (“Deus meu Salvador … Derruba os poderosos e levanta os humildes” – S. Lucas 1, 46,55), é apresentada em tom doutrinal na carta aos Filipenses (“Jesus privou-se do que era seu e tomou a condição de escravo, tornando-se igual aos homens. E vivendo como homem, humilhou-se a si mesmo, obedecendo até à morte, e morte na cruz.” – 2, 6-8) e expressa-se de modo sublime no episódio do lava-pés (“Se eu, que sou Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós, de agora em diante, deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como eu fiz, o façais vós também uns aos outros.’”- S. João13, 1-17). É a humildade atuante (sem inferioridade ou fraqueza) a do exemplo de Jesus.  
Então, nesta humildade criativa, para pedir a Deus basta que o façamos como as crianças. Pedem tudo e mais alguma coisa, sem rebuço ou vergonha. Mas, ganham-na à medida que crescem, em formalidade, e o pedir passa a palavra rotinada. Até a humildade diminui e a confiança da criança que fomos se esvai. Por isso Jesus nos avisa: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (S. Mateus 18,3).

+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana
 
 

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