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Domingo da Trindade - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 12/6/2022

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COMENTÁRIO BÍBLICO 
Domingo da Trindade– Ano C
12jun2022

Provérbios 8,22-31; Salmo 8; Romanos 5,1-5

S. João 16,12-15 
12Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas isso agora era demais para vocês. 13Quando vier o Espírito da verdade, vai guiar-vos em toda a verdade. É que ele não falará por si próprio, mas comunicará o que lhe disserem e anunciar-vos-á as coisas que ainda estão para acontecer. 14Ele vos manifestará a minha glória porque tomará daquilo que é meu e vo-lo anunciará. 15Tudo quanto o Pai tem, pertence-me também a mim. Por isso é que eu digo: o Espírito receberá daquilo que é meu e vo-lo anunciará.» 

A SS Trindade é um mistério, o que significa que tentar explicá-la é falar do que não sabemos. Na verdade, ninguém conhece o “ser de Deus”, pois somos humanos e esse conhecimento não está ao nosso alcance. Ora, a fé cristã ensinada ao longo dos séculos apresenta a Trindade como um só Deus em três pessoas distintas, Deus como Pai, Jesus como Filho e o Espírito Santo. Atentemos no que “isto” nos pode ajudar no nosso viver.

1. O Salmo 8 indicado na liturgia da celebração eucarística de hoje começa e acaba com uma explosão de fé: “Ó Senhor, Senhor nosso, quão poderoso é o teu nome em toda a terra” (Salmo 8, 2 e 10). O olhar da(o) crente a expressar a sua inferioridade e ao mesmo tempo a proclamar com total confiança a grandeza do Deus em quem acredita. Desta forma, a pessoa humana aceita ter sido feita à imagem de Deus (o seu criador), participa na glória de Deus e associa-se à Sua soberania. Pode parecer pouco, ou mesmo nada, para o modo de ser de quem não consegue, ou não quer, acreditar, mas faz toda a diferença para aquele(a) que associa o seu viver à existência de Deus e, assim, “vive” na ambiência da Sua soberania. Isto é, tem a Deus como soberano da sua existência, como eixo da roldana da sua vida, confia na Sua presença de amor e misericórdia, aceitando-O em cada momento, como diz o Hino 172 (SH): “Rochedo forte é o Senhor, /Refúgio na tribulação! / Constante e firme Amparador, /Refúgio na tribulação!”

2. Porém, na fé, como ato de confiança, experimentamos um “diálogo” humanamente impossível entre a transcendência – nem visível nem acessível –, e o apelo da pessoa humana que espera a sua ação. Então, torna-se necessária a existência de um meio de comunicação entre o divino e o humano, uma intermediação que revele o “ser” de Deus e conheça a realidade da pessoa humana. Numa palavra, precisa-se de um modelo que ajude à eficácia da fé. E esse modelo e mediador é Jesus Cristo (“há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus, que se deu em resgate por todos.” - Timóteo 2, 5). De acordo com o Evangelho, “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha e vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele.” (S. João 3, 16 e 17). Jesus veio proclamar as palavras que recebeu do Pai e, desse modo, faz-nos conhecer Aquele que conhece e convida-nos a viver na Sua fé. Ele próprio se apresenta “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (S. João 14, 6); “Eu sou o pão da vida” (S. João 6, 35); “Eu sou a luz do mundo” (S. João 8,12); “Eu sou o bom pastor” (S. João 10,11); e afirma “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (S. João 10,10). Ou seja, Jesus veio para preencher-nos de esperança, que para nós significa vida. E o Apóstolo Paulo, ao seu jeito, diz-nos na leitura do Novo Testamento de hoje: “Foi por meio de Cristo e pela fé que nós conseguimos esta harmonia com Deus (a paz) que agora temos. E isso dá-nos a maravilhosa esperança de tomar parte na glória de Deus. Mais ainda, nós sentimos alegria nos nossos sofrimentos, porque o sofrimento produz a perseverança; a perseverança provoca a firmeza de caráter nas dificuldades e a firmeza produz a esperança. Esta esperança não nos engana, porque Deus encheu-nos o coração com o seu amor, por meio do Espírito Santo que é dom de Deus.” (Romanos 5, 1-5).
A esperança – a possibilidade de “vivermos” aqui e agora numa realidade que se nos afigura difícil, sofrida e depressiva. A guerra, suas malévolas intenções e consequências dramáticas para o povo ucraniano imerso num mar de terror e morte. As dificuldades quotidianas com que, uns mais outros menos, nos deparamos – em particular os mais frágeis, os velhos e doentes, os desamparados da vida, os pobres, os que procuram emprego – que trazem desassossego e desequilíbrio mental e físico. As notícias desanimadoras da subida do custo de vida e demolidoras sobre as alterações climáticas com suas consequências nefastas em especial para as futuras gerações. Jesus, perante tudo isto diz-nos “Eu não estou só, porque o Pai está comigo. Eu vos disse tais coisas para terdes paz em mim. No mundo tereis tribulações, mas tende coragem, eu venci o mundo.” (S. João 16,13).         

3. Rubem Alves, teólogo e poeta brasileiro, no seu livro “Ostra feliz não faz pérola”, inclui um texto intitulado “Olhar perturbado”, onde se lê: “A poesia é uma perturbação do olhar. O poeta vê o que não está lá. Para ele, as coisas são transparentes, abrem-se para outros mundos.”[i]Assim como o(a) poeta “vê” para além da realidade, também quem se alimenta da fé e atua no contexto da esperança está predestinado a um “olhar” que por vezes ultrapassa a “visão” comum da vida. Não foi por acaso que Jesus disse aos Apóstolos Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas isso agora era demais para vós. E, confortando-os e animando-os explica-lhes que “Quando vier o Espírito da verdade, vai guiar-vos em toda a verdade.”, ou seja, serão introduzidos em ambiências que são para lá do que respeita ao humano. Fá-los-á experienciarem desejos de ação de acordo com a vontade de Deus e dar-lhes-á o necessário para que o levem a cabo.  Isto é, com o Espírito Santo a vontade de Deus torna-se “visível”, como a outra realidade para o poeta, e pode acontecer poesia… Nem sempre ao arrepio dos nossos desejos e das nossas compreensões. Mas, sempre a puxar-nos para a inter-relação com o outro em comunhão, compreensão e aceitação. Na paz vivida e transmitida, na bondade que abre portas e desmonta muros de separação, na relação fundada na ética da justiça, da sinceridade e honestidade e numa esperança que eleva a vida.
Então, a SS Trindade “apresenta-nos” um modelo de existência onde o Deus uno se expressa em três “pessoas” distintas ligadas pela intercomunhão e doação mútua: o Pai, que se comunica à pessoa humana, revelado em Jesus Cristo, a Palavra viva, pela ação do Espírito Santo.

+ Fernando  
Bispo Emérito da Igreja Lusitana


[i] Citado por Afonso Cruz, ‘Paralaxe’, JL, 01 a 14junho2022.
 
 

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