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6º Domingo depois da Páscoa - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 28/5/2022

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COMENTÁRIO BÍBLICO 
6º Domingo depois da Páscoa – Ano C
29mai2022

Atos 16,16-34; Salmo 97; Apocalipse 22,12-20

S. João 17,20-26

20Não te peço apenas por eles, mas também por aqueles que crerem em mim por meio da sua pregação, 21e para que todos sejam um. Pai, que eles estejam tão unidos a nós, como tu o estás a mim e eu a ti. Desta maneira, o mundo há-de acreditar que tu me enviaste. 22Dei-lhes a mesma glória que me deste, para que vivam em perfeita unidade como nós.
23Eu vivo neles e tu vives em mim. Deste modo a sua união será perfeita e o mundo há-de saber que me enviaste e que os amas como a mim.
24Pai! Que todos aqueles que me deste estejam onde eu estiver, para que possam contemplar a glória que me deste, porque tu amaste-me antes que o mundo fosse mundo. 25Pai bondoso, o mundo não te conhece, mas eu conheço-te, e estes também já sabem que fui enviado por ti. 26Eu dei-lhes a conhecer quem tu és, e vou continuar a fazê-lo, para que eles se amem, como tu me amas, e o meu amor esteja neles.»

1. O Evangelho de hoje integra-se na grande oração com que Jesus termina a última ceia com os discípulos, antes da Sua paixão. Os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) dizem-nos muitas vezes que Jesus orava, particularmente em locais ermos e altos, mas não nos referem o conteúdo dessas orações. Então, vale a pena atentarmos nesta oração que nos revela o coração de Jesus e nos serve de modelo para a nossa “conversa” pessoal com Deus, diariamente ou sempre que a entendemos fazer.
Acima de tudo, verificamos que nesta oração, no capítulo 17 do Evangelho de S. João, não se encontra qualquer expressão de angústia relativamente à paixão que vai ter de enfrentar, como se nota no relato da sua oração no Jardim de Getsémani (S. Lucas 22, 39-44). Antes, o relato deixa transparecer a Sua confiança na certeza absoluta do amor de Deus. Eis, portanto, um aspeto a considerar no modo como nos “aproximamos” de Deus pela oração. Confiantes e certos do Seu amor, são condições fundamentais para uma experiência da presença de Deus que nos ilumina e nos faz olhar para o que somos – “Senhor, eu não sou digno de receber-Te; mas diz somente a Palavra, e serei salvo.” (da Liturgia eucarística da Igreja Lusitana).
Por outro lado, aquela oração de Jesus é uma grande intercessão por Si, pelos Seus discípulos e por nós. Jesus ao orar por Si próprio ensina-nos que é natural que oremos por nós, que apresentemos ao Pai as nossas preocupações e peçamos as Suas orientações para a nossa vida. Façamo-lo, no entanto, confiadamente, isto é, na plena adesão à Sua vontade. Depois, Jesus pede pelos discípulos, que Deus os guarde, que sejam um como Ele e o Pai são um, que os preserve do mal, que os santifique na verdade. Que intercessão tão significativa pelos Seus discípulos que bem podemos usar quando oramos pelos outros que conhecemos, os que connosco fazem vida, que nos acompanham nos momentos alegres e tristes da nossa existência! Ainda, Jesus roga também por nós – “não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio da sua palavra, crerão em mim” (17, 20 -21). Que extraordinário sabermos que Jesus não nos esqueceu na sua oração, muito antes de vivermos e manifestarmos a nossa vontade.
Depois da ceia, Jesus disse-lhes: “Disse-vos estas coisas para terdes paz em mim. No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!” (16, 33). Esta é a nossa segurança.

2.Mas, o Evangelho de hoje também apela à unidade, entre os discípulos e entre nós, os que cremos em decorrência da pregação daqueles, para que todos sejam um. Pai, que eles estejam tão unidos a nós, como tu o estás a mim e eu a ti. Desta maneira, o mundo há-de acreditar que tu me enviaste”. Habituamo-nos a pensar a unidade somente entre as Igrejas cristãs e predispusemo-nos a definir estratégias de relação entre as mesmas, canalizando toda a nossa energia unificadorapara a arquitetura de “cenários” de aproximação. Ora, é tempo de pensar e aceitar que a unidade, na perspetiva de Jesus, só se faz e subsiste no amor. É uma unidade gerada pelo amor entre o Pai e o Filho e a unidade gerada pelo mesmo amor entre o Filho e aqueles e aquelas a quem ama. Isto é, aunidade, entendida como um estado de alma num processo de vida que implica caminho com outros, humildade para aceitar o diverso, acolhimento sincero, espírito crítico, capacidade de discernir entre os acidentes e a essência na pesquisa da verdade, só pode ser realizada no amor. Sem esse sentimento que transforma e cria as condições para o encontro verdadeiro entre irmãos, mesmo pertencentes a instituições eclesiais diferentes, não é possível nunca descobrir a importância da unidade nem a plenitude da sua eficácia. Particularmente, porque sem amor, muito dificilmente se consegue compreender que todos sejam um” não significa que todos seremos iguais, antes, é aceitar a diversidade de dons e outros atributos que Deus dá a cada um(a) e com eles criar a ambiência amorosa que derruba muros, interliga os diferentes e anima e alegra a vida partilhada.

3. Temos uma família, não por nascimento, mas, por opção. Os nossos predecessores, há 142 anos, ao constituírem a Igreja Lusitana num Sínodo, deixaram patente que a Igreja Lusitana seria uma organização eclesial de natureza sinodal, onde bispos, clérigos e leigos têm lugar com igual direito a voz e voto, se legisla sobre a vida da Igreja e se aprovam as Comissões necessárias à Missão da Igreja, de acordo com os Cânones e Estatutos aprovados pelo próprio Sínodo. O Bispo Diocesano preside ao Sínodo e convoca as suas reuniões. Assim se aderiu a uma organização democrática, participada pelas diversas instâncias e diluindo o poder na Igreja pelos seus diversos órgãos. Por isso, o Sínodo se afirma como o órgão legislativo e deliberativo da Igreja com a função de monitorar toda a sua atividade. Também, ao decidirem no Sínodo de 1882 o uso do Livro de Oração Comum em todas as congregações da Igreja Lusitana, definiram a nossa doutrina e espiritualidade conformes à do modo de ser anglicano. Tudo isto vivenciado numa prática litúrgica que contempla e respeita as diversas tradições de cada Igreja nacional tendo em conta as suas idiossincrasias culturais. Esta opção dos nossos pais só, mais tarde, em 1980, foi reconhecida e aceite pela Comunhão Anglicana, passando desde aquela altura a Igreja a ser parte da Comunhão Anglicana como Diocese Extra-Provincial, tendo, por isso, o Senhor Arcebispo de Cantuária (quem quer que seja) como sua Autoridade Metropolitana, na qualidade de sinal visível da unidade na Comunhão Anglicana. Estamos acompanhados, portanto, temos uma identidade, somos parte de uma família mundial.
É o que devemos ter presente, continuar a vivenciar e celebrar como dom num espírito de gratidão e alegria neste Domingo da Comunhão Anglicana.

+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana
 

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