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4º Domingo depois da Páscoa - Comentários bíblicos - Bispo D. Fernando Soares - 15/5/2022

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COMENTÁRIO BÍBLICO 
4º Domingo depois da Páscoa – Ano C
15mai2022

Atos 14,8-18; Salmo 145,14-21; Apocalipse 21,1-6
 
S. João 13,31-35
31Depois de Judas sair, Jesus falou assim: «Agora mesmo se manifestou a glória do Filho do Homem e a glória de Deus através dele. 32E se a glória de Deus se manifestou pelo Filho, Deus mesmo há-de fazer com que a glória do Filho apareça. E isto vai acontecer sem demora.
33Meus filhos, já não vou estar convosco por muito tempo. Hão de me procurar, mas digo-vos, desde já, o mesmo que disse aos judeus: Não podem ir para onde eu vou. 34Deixo-vos agora um mandamento novo: amem-se uns aos outros. Assim como eu vos amei, é preciso que se amem também uns aos outros. 35Se tiverem amor uns aos outros, toda a gente reconhecerá que são meus discípulos.»

1. “O céu proclama a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra da sua criação. (…) Tudo isto é ouvido sem discursos nem palavras, sem a emissão de qualquer som. Contudo, a sua proclamação ressoa em toda a Terra e a sua mensagem chega aos confins do mundo. ” (Salmo 19, 2-5). O Antigo Testamento refere inúmeras vezes a “glória de Deus” sem que alguma vez a especifique ou defina. Naquele Salmo é exaltada com uma proclamação que se não “ouve”, inaudita, que está para lá da compreensão e da audição humanas, inatingível. Vale-nos a poesia e a fé para dela nos apropriarmos e nela nos regozijarmos profunda e infindamente.
No Novo Testamento temos o Evangelho de hoje onde Jesus afirma a “glória de Deus” através de si próprio. Com a saída de Judas da última ceia de Jesus com os seus discípulos a paixão estava a começar e Jesus celebrava já o Seu triunfo como alcançado. Diz-nos com muita clareza que ao ser traído e morto na cruz é quando vai ser “glorificado” e, portanto, manifesta a “glória de Deus”. Esta, por sua vez, tornou-se visível e alcançável a quem crê e quer realmente seguir a Cristo na humildade e obediência ao desígnio divino. Assim, Jesus mostrou que nem todo o fracasso é queda ou afundamento. Há fracassos que são “exaltação”, pois, neles triunfa a bondade sobre a maldade, o amor sobre o ódio e a indiferença (José Mª Castillo).
A glória de Deus é a humanidade de Jesus trazendo vida à pessoa humana, ao transformar um coração abatido em força renovada pelo amor: “Eu vos disse tais coisas para terdes paz em mim. No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!”(S. João 16, 33).     

2. “Deixo-vos agora um mandamento novo”. Não era novo, pois já existia na lei mosaica (ama o teu próximo como a ti mesmo” - Levítico 19, 18). Porém, era novo pela ‘perfeição’ a que Jesus o elevou, como o expressam os Evangelhos de S. Mateus (5, 44)e de S. Lucas (6, 27)“Amai os vossos inimigos”, e, ainda, porque passou a ser como que o emblema, a “marca”, dos tempos novos, revelados na morte de Jesus na cruz.
Consta que Picasso, o célebre pintor espanhol, sossegava alguém que o avisava para a imprudência de armazenar num velho barraco do seu quintal um montão de obras, pois facilmente podiam ser roubadas, dizendo: “não me preocupo, elas não estão assinadas!”. A “marca” que conferia “valor” às telas daquele célebre pintor amontoadas sem grande preocupação de segurança era a sua assinatura. Ou seja, a pintura em si de nada valeria se não se lhe juntasse a assinatura do seu autor, a marca que as tornava únicas, especiais e dignas de apreço artístico. Quantas obras de arte passaram despercebidas ao longo dos tempos porque não foram assinadas pelos seus autores, porque não mostravam a “marca” que as distinguia e lhes dava identidade!
Passa-se o mesmo no universo cristão. A “marca” de Deus é o amor (I João 4, 8.16), e, por isso, “aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (I João 4, 16). Ou seja, o amor é a marca divina da nossa filiação, o nosso distintivo, o identificador do nosso seguir a Cristo, o procedimento que permite que se saiba que somos seus discípulos: “se vos amardes uns aos outros todos saberão que sois meus discípulos”. Num escrito dum pagão a propósito dos hábitos dos cristãos dos primeiros tempos relata-se que eles viviam como todas as outras pessoas, apenas com uma diferença, amavam-se uns aos outros. E o autor sublinhou: “vejam como eles se amam!”. Era isso que os tornava reconhecidos e, portanto, testemunhas vivas do amor de Deus. Era essa a novidade dos cristãos nos primeiros séculos, a “marca” que os distinguia.

3. Todavia, não é um amor qualquer. A palavra “amor” está muito desgastada e tem vindo a perder o seu valor, a sua força. Não é somente uma atração corporal, nem tão pouco é somente uma idealização poética ou utópica. O amor é uma força que verdadeiramente move o mundo. É uma força que contém uma energia que contagia. Reparemos nas palavras de Jesus aos Apóstolos: “Assim como eu vos fiz, fazei-o vós também”“amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. O amor de Jesus pelos discípulos é uma escola de humanidade onde preponderam o acolhimento, a escuta, a compreensão e a disponibilidade para ajudar. Foi isso que viram e registaram nos evangelhos e que naturalmente se fez luz nas suas mentes após a ressurreição. Este amor precisa de tempo para ser apreendido, de paciência para ser exercido no nosso dia-a-dia, de muita humildade e oração para ultrapassar as tendências naturais da nossa condição humana. Isto é, dá muito trabalho e muitas vezes dói. Tem de se aprender a amar. Como uma flor, com quem tem de se saber lidar, fortificar com paciência (sua vitamina primordial), regar com escuta, sachar com rigor e apreciar (olhar) com misericórdia. Só assim será um amor que faz tudo novo (Apocalipse 21, 5). Entretanto, precisamos de ter presente que “não é próprio [da alma] nascer cristã, mas fazer-se [cristã] ” (Tertuliano 160-220 d.C.).

+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana

 

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