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COMENTÁRIO BÍBLICO 
Domingo de Páscoa – Ano C
17abr2022


Atos 10,34-43; Salmo 118,14-24; I Coríntios 15,19-26
 
S. João 20,1-18
1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo, logo de manhã, fazendo ainda escuro e viu que a pedra da entrada já tinha sido retirada. 2Foi a correr ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e disse-lhes: «Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram.»
3Então Pedro e o outro discípulo saíram e foram ao túmulo ver o que se passava. 4Iam a correr juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro. 5Inclinou-se para ver e reparou que as ligaduras continuavam ali, mas não quis entrar. 6Logo a seguir chegou Simão Pedro. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver as ligaduras no chão 7e o pano que cobria a cabeça de Jesus dobrado a um canto e não misturado com as ligaduras. 8Depois entrou também o outro discípulo que tinha chegado primeiro. Viu e acreditou. 9Na verdade ainda não tinham entendido a Escritura segundo a qual Jesus havia de ressuscitar. 10Depois disto os discípulos foram-se embora para casa.
11Maria ficou junto ao túmulo da parte de fora, a chorar. Entretanto, inclinou-se para dentro 12e viu dois anjos vestidos de branco. Estavam sentados no sítio onde tinha sido colocado o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. 13Eles perguntaram-lhe: «Mulher, por que estás a chorar?» E ela disse-lhes: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.» 14Logo a seguir, voltou-se para trás e viu Jesus de pé mas não sabia que era ele. 15Perguntou-lhe Jesus: «Mulher, por que estás a chorar? Quem é que procuras?» Ela pensava que era o homem encarregado da propriedade e disse-lhe: «Se foste tu que o tiraste, diz-me onde o puseste que eu vou lá buscá-lo.» 16Jesus chamou-a: «Maria!» Ela, voltando-se, exclamou em hebraico: «Rabuni!» (palavra que quer dizer «meu Mestre»). 17E Jesus disse-lhe: «Não me toques porque ainda não voltei para o meu Pai. Vai ter com os meus irmãos e dá-lhes este recado: eu volto para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus.» 18Maria Madalena foi dar a notícia aos discípulos e dizia: «Eu vi o Senhor!» E contou-lhes o que ele lhe tinha dito.

1. Testemunha da ressurreição.
«Vi o Senhor!»- exclamação de alegria. Efusiva, fervorosa, que preenche por dentro, eufórica, libertadora, que se exterioriza. Porém, atentemos bem nas diversas narrativas relacionadas com as atitudes dos discípulos após a morte de Jesus. Maria Madalena em lágrimas, de coração caído, perante o desaparecimento do corpo, com uma tristeza deprimente e confusa perguntando ao jardineiro do horto: “diz-me onde O puseste”; os discípulos de Emaús descorçoados: “passaram já três dias…” (S. Lucas 24, 13-35); os discípulos trancados com medo dos judeus (S. João 20, 19-20). Em todos aqueles episódios verifica-se um crescendo de tonalidade no seu desenvolvimento, começando pelo grave e evoluindo até ao agudo gritado: Cristo ressuscitou! Aleluia! Que é isto senão um jeito de viver na dor e no abatimento com esperança de um acontecimento feliz, alegre e proporcionador de vida! Na realidade, a verdadeira alegria é a que surge no seguimento dum caminhar feito de propósitos e de valores – por vezes penoso e desventurado – à custa de muita paciência, coragem e esperança. Como aconteceu com os discípulos, amedrontados “ao entrarem na nuvem” do Monte da Transfiguração do Senhor (S. Lucas 9, 34) e perante o vento revolto que ameaçava afundar o barco enquanto Jesus dormia (S. Lucas 8, 24). E para que se não pense que essa esperança é de mera ‘produção’ humana, até anjos ou vozes de anjos podem ‘emergir’ no caminho («Mulher, por que estás a chorar?»)a fazer-nos lembrar a necessidade da transcendência, de Deus, para avançarmos mesmo na dúvida como gente de fé.       

2. Testemunhas do túmulo vazio.
Pedro e João entraram no sepulcro, viram o túmulo vazio, viram o nada e foram-se embora. Tristes como o pano da paixão e com medo, muito medo, sem compreenderem nada. A fé precisa de tempo para se maturar no pensamento e no coração, para se afirmar sem delongas, para reconhecer o irreconhecível aos olhos do mundo. Não é uma questão de fórmulas ou regras litúrgicas, é algo que provém de um coração confiante que nos mantém em comunhão com Deus e nos ajuda a superar a angústia, a desconfiança e o orgulho humano. Ver o vazio e acreditar que a Jesus ressuscitado nenhum sepulcro pode prender, nenhuns trapos podem enfaixar nem ninguém embalsamar, é aceitar viver entre o assombro e o deslumbramento, a dúvida e a fé e descobrir que em Jesus a vida e o amor venceram a morte.
Mas os discípulos foram-se embora, acabrunhados, vencidos pela incompreensão da realidade, pois, “ainda não tinham entendido a Escritura segundo a qual Jesus havia de ressuscitar”. Mais tarde, pelos encontros com o Senhor glorificado iriam ser transformados e, desde aí, transformar o seu medo em confiança, a sua tristeza em alegria, a sua solidão em comunhão. Era – e continua a ser – o testemunho luminoso da ressurreição do Senhor.

3. Na Mensagem de Páscoa do Conselho Mundial de Igrejas para 2022 pode ler-se:
“Quando olhamos em redor, só vemos sinais de destruição e de morte. O número de vítimas das injustiças económicas e ecológicas está a aumentar em todo o mundo. A pandemia aumentou a distância entre ricos e pobres, entre poderosos e vulneráveis. A crueldade da guerra na Ucrânia e noutras partes do mundo está a vitimar milhares de vítimas inocentes, permitindo todo o tipo de atrocidades, destruindo tudo à sua passagem e multiplicando hordas de deslocados e refugiados. A violência contra as mulheres, as crianças, os idosos e os que são diferentes de nós aumenta drasticamente. Ao amanhecer de cada novo dia tem-se a impressão de que a angústia, a desolação e o desespero imperam em todas as partes. Mesmo assim, no meio de tantas tribulações e do profundo desespero do nosso mundo, (…) a voz do anjo que falou às mulheres no túmulo é a mesma para o mundo atual e continuará a sê-lo até ao final dos tempos. “Não temam” (S. Mateus 28:5); “Não se assustem” (S. Marcos 16:6),Jesus que foi crucificado, ressuscitou! A vida venceu e triunfou sobre a morte!”
E mesmo hoje há experiências de ressurreição.
Era uma zona, entre tantas outras, completamente destruída pela fúria do exército russo. Agora, que a resistência ucraniana havia recuperado a área, o homem, de ar robusto e pelos 50 anos de idade, mostrava à equipa de televisão os destroços da sua oficina de reparações e o seu café. Explicava como tinha sobrevivido naquela situação e pormenorizava que os russos lhe tinham roubado todas as ferramentas para que não continuasse a trabalhar nem a servir cafés. E repetia enfaticamente que não queria ajuda, pois, havia muita gente que precisava muito mais do que ele. “Vou comprar ferramentas e recuperar o café”. Eu, do lado de cá da pantalha, fechei os olhos e “vi”, escancarada, no coração daquele homem, a Ressurreição. Perante o lado escuro da sua vida que a guerra o fazia entrar com a perda dos seus bens onde granjeava o sustento para si e para os seus, o homem pensava nos outros e no seu esforço de recuperação. O noticiário continuou com outro assunto.

+ Fernando
Bispo Emérito da Igreja Lusitana

 
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