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“DIOGO CASSELS – A Praxis ao serviço da Fé” da autoria de Fernando Peixoto PDF Imprimir e-mail

FNAC, GaiaShopping, VNGaia, 21 de Fevereiro de 2006

Nota de apresentação do livro por Bispo Fernando Soares

Minhas Senhoras e meus Senhores, Antes de tudo agradeço ao Dr. Fernando Peixoto o ter-me convidado para fazer a apresentação do seu Livro “DIOGO CASSELS – A Praxis ao serviço da Fé”.

Não serei certamente a pessoa mais indicada para a tarefa, pois, não tenho grande experiência nestas andanças. Reconheço o arrojo do convite e agradeço-lhe a confiança. Comigo fica a honra e o proveito, que não enjeito. Permiti, portanto, algumas reflexões sobre a obra. Escrever um livro é sempre algo de valoroso. Dizia-se, até, há alguns anos, que a realização plena de uma pessoa requeria a tríplice tarefa de fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Estava aí implícita a preocupação da sobrevivência, tanto na continuidade da descendência, como na memória dos vindouros, pelo que fica de palpável e específico. Mas, neste caso, ao valor da iniciativa, deve acrescentar-se a acção corajosa, pois o livro que agora se dá à estampa, ao arrepio da tendência actual, fala-nos da fé dum homem ao serviço de Deus. “Nos tempos que correm já não há Deus nem Diabo.

Há só pobres e ricos. E salve-se quem puder.”- diz a cozinheira no fim do conto de Sophia de Mello Breyner Andresen ‘O Jantar do Bispo’.* Na realidade, a nossa sociedade e a nossa cultura esforçam-se por viver e exprimir-se de costas voltadas para Deus. Exalta-se a importância do homem, do individual, num relativismo exacerbado que, a par dos seus muito apregoados benefícios, vai fazendo resvalar a comunidade humana para comportamentos de sentimentalidade difusa e contraditória, gerando ausência de valores que leva à incompreensão, ao desnorte, à infelicidade. O absoluto, Deus – ou como se lhe queira chamar – é liminarmente rejeitado, a referência à transcendência é considerada como pecado capital, e, assim, se vai perdendo o sentido último das coisas e a referência para uma valoração comportamental que confere rumo à existência. Até mesmo os escritores o reconhecem na sua área de acção, como o expressou reputado intelectual Eduardo Prado Coelho: “a literatura continua a escrever-se mas serve sobretudo para dizer que as palavras deixaram de ser aquela ordenação do mundo que nos ajudava a perceber isto.” E remata: “escreve-se sobretudo a angústia da perplexidade.”** Tinha razão o grande Miguel Torga ao escrever no seu “Diário XVI”, o último dado à estampa antes da sua morte: “temos tudo, falta-nos o essencial”. Permiti-me 3 apontamentos sobre a pessoa de Diogo Cassels – o personagem do Livro e uma nota final.

1. Diogo Cassels – um construtor de esperança A obra prima de Handel “MESSIAS” começa com as palavras de Isaías 40,1: ”Consolai, Consolai, o meu povo”. É o grito do profeta, inspirado por Deus, proclamando ao povo hebraico, prisioneiro na Babilónia, uma era de esperança e preparando-o para a sua libertação e o seu regresso à pátria. Para aquele profeta, a esperança relaciona-se com o serviço de consolo, ajuda, acompanhamento ao povo de Deus. Das 3 virtudes teologais, a esperança é aquela que podemos recriar, inventar, fazer do nada. Conta-se que O Grande Alexandre antes de partir para a sua expedição, distribuiu pelos seus amigos tudo o que possuía e, como lhe perguntassem o que reservava para si, respondeu: “a esperança”. Na verdade, a esperança tem a ver com aventura, empreendimento ousado, e requer ousadia, trabalho, paciência, esforço, preocupação. Jesus veio acrescentar a este conceito de esperança a necessidade de saber “olhar o outro”. Ora, foi essa sabedoria que Diogo Cassels viveu e praticou para com “o outro” do seu tempo.

Realmente, e acima de tudo, o segredo da sua acção, da sua ‘praxis’, esteve no modo como olhou a realidade do seu tempo e, determinou o respectivo alvo. Nesse sentido, o historiador Fernando Peixoto é claro: “os operários constituíam o seu tecido social de eleição” (pág. 24). Percebeu, por intuição ou racionalmente, que a classe operária era o campo onde poderia evangelizar e servir. E por aí fez campanha, com uma determinação e um desejo profundo de contribuir para a libertação dos trabalhadores das amarras do analfabetismo e do obscurantismo religioso. Olhou-os com perspicácia e definiu a estratégia de acção, centrada no contexto bíblico e temperada num acrisolado amor a Jesus. O seu olhar para os seus contemporâneos constituiu-se como que a concretização material da resposta divina à oração de Teilhard de Chardin: “Concede-me, Senhor Deus, que reconheça nos outros homens a luz radiante da tua própria face”.

Por isso, a sua acção nunca foi esmoler no sentido estrito do termo, antes decorreu do “mandamento de Deus solene e rigoroso, uma palavra nua de Deus atravessando o espírito do homem.”, usando a poética de Sophia Andresen ***. Diogo Cassels, que tinha a esperança arreigada no seu coração, viveu-a construindo esperança nos outros. Na página 32 do livro que estamos a lançar lê-se. “Na Egreja Lusitana de 1908, escreve à guisa de balanço que ‘muitos alunos e ex-alunos d’esta escola são agora empregados commerciais e públicos, outros são artistas, negociantes, e officiaes do exercito, dous são ministros da Egreja Lusitana, e outros dous estudantes esperam um dia receber ordens sacras”. Ou seja, Diogo Cassels não era somente um homem de esperança. Exercitava-a com ânimo e inteligência consolando o povo em que nasceu e viveu. Não lhe dava somente esmolas. Sobretudo proporcionava-lhe instrumentos de esperança para a sua libertação da iliteracia, da ignorância, e, assim, suscitava-lhe meios de subsistência e de autonomia para o exercício duma cidadania consciente. Antecipou 100 anos as palavras do Papa Bento XVI na sua primeira encíclica recentemente publicada: "A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Mas toca à Igreja, e profundamente, empenhar-se a favor da justiça, trabalhando para a abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem".

2. Diogo Cassels – simplesmente um homem
Mas, este livro contém um elemento que se deve realçar: a apresentação de Diogo Cassels também na sua real dimensão humana. Na verdade como homem, feito da sua própria natureza, Diogo Cassels viveu as dificuldades do seu ser natural e explicitou-as de modo claro na sua relação interpessoal. O Apóstolo Paulo chama a essa condição humana “vaso de barro” onde diz que trazemos o tesouro da graça de Deus, para que se veja que esse poder extraordinário pertence a Deus e não a nós (2Cor 4,7).Meu pai, que conheceu pessoalmente Diogo Cassels e com 12 anos assistiu ao seu funeral, narrou-me algumas peripécias do Sr. Dioguinho relacionadas com a sua bengala. Sempre para mim foi de difícil compreensão nos relatos da sua vida a subsistência duma bondade elevada à mais alta potência ao lado de referências pouco abonatórias no uso disciplinador da sua bengala. Compreendi-o agora. Diogo Cassels era uma pessoa sujeita às circunstâncias da existência humana, sabia o que queria e era senhor de um espírito interventivo. Fernando Peixoto explica-nos isto com o seguinte comentário: “temperamento de um homem tenaz, certamente intempestivo, de arreigadas convicções, por vezes mesmo teimoso, mas só assim susceptível de carrear as forças necessárias para as muitas e duradouras lutas que travou ao longo de toda um vida.”(pág.42 ). Foi um homem de corpo inteiro na relação com a vida, em tudo o que a natureza humana tem de valor e de fraqueza, “em toda a sua dimensão do contraditório e da falibilidade” (pg 42). Foi um coração aberto na relação com os outros, no olhar, na escuta, na compreensão, em responsabilidade. Do conjunto ficou uma existência sorvida, inteira, com sentido e finalidade.

3. Diogo Cassels: um crente militante
Na síntese investigativa diz-nos o historiador: “Diogo não tergiversava sempre que se impunha a tomada de posições sobre questões de fé ou da sua prática” (pág. 26). Na verdade, a relação de Diogo Cassels com a fé é da ordem do Ser, absorvida esta como foi desde a sua infância sob a orientação educativa de sua mãe. Dir-se-ia que em Diogo se fez prática a máxima de um autor anónimo: “Sabedoria é a capacidade de viver a vida por meio de cultivo de hábitos que aumentam a sensibilidade à voz interior de Deus.” E como construiu ele toda uma filosofia de vida centrada nessa relação com Deus que eleva até ao infinito o viver mesmo em circunstâncias adversas.

Nos anos finais da sua existência a sua actividade em prol das Escolas e da Igreja era já penosa. A sua idade para o tempo era longa e não havia na altura as mesmas facilidades de transporte e outras para as suas deslocações, particularmente na recolha de donativos para a manutenção das Escolas. Então, as pessoas mais próximas recomendavam-lhe que parasse, pois o cansaço visível fazia as suas moças. Diogo Cassels a todos respondia – contava-me alguém que com ele conviveu – com um versículo bíblico retirado da carta aos Filipenses (4,13) “posso tudo naquele que me fortalece”. Ele sabia que a sua acção não era uma mera decorrência da sua capacidade humana, mas tinha por trás de si a excelência da força de Deus, o amor divino, que o levava a fazer coisas para as quais a capacidade humana era já empecilho. É isto, que mostra o verdadeiro significado de uma fé vivida no quotidiano. A aceitação das dificuldades na segurança de um Deus que nos ama, na convicção de um objectivo a cumprir para além da nossa existência. No seu testamento, a propósito da sua morte, diz: “não tenho merecimentos, mas confio em Cristo como único Salvador”. Não eram meras palavras, antes, era a declaração de uma filosofia de vida que marca indelevelmente aquelas e aqueles que se gastam no exercício de uma convicção para além do que é visível ou sensível. D. António Ferreira Gomes aflora esta questão da crença como parte integrante do ser homem escrevendo: “Importa ir para a Verdade com todo a nossa alma, isto é, com todo o nosso ser. E esse só poder ser o caminho do amor ou da graça de Deus em Cristo.” **** Diogo Cassels pôs toda a sua alma no que fez porque aceitou o Senhor em quem confiava e foi ao encontro dos mais desfavorecidos na Verdade que servia. Com esta militância na fé a vida de Diogo Cassels pode olhar-se hoje como um verdadeiro grito de esperança a anunciar: não vos deixeis tomar pelo desespero porque “do outro lado do abismo está com certeza alguém”*****.

4. Nota final Este livro é resultado de uma paixão, um fascínio, que prendeu o Dr. Fernando Peixoto à “personalidade rica e complexa” (pág. 52) do Sr. Dioguinho. Mas a análise faz apelo a um espírito crítico – de verdadeiro historiador – que levanta a questão: como é possível conviver na mesma pessoa uma bondade indómita e uma tenacidade de truculência lutadora, de teimosia desassombrada? A páginas 50, Fernando Peixoto refere: “Intolerante em muitas situações, teimoso até à obsessão, mas igualmente capaz de rasgos de profunda compreensão e piedade.” (pág. 50). Isto é, na pessoa do investigador da história com a ciência e técnica da análise convive uma bem humana sensibilidade apreciativa que se deixa tomar por um questionamento existencial, pondo a objectiva análise das fontes ao serviço da busca de respostas. É essa metodologia narrativa que dá ao livro um valor acrescentado, juntando ao estilo biográfico uma mão cheia de interrogações sobre a vida do biografado, fornecendo pistas para entender-se a complexidade da personalidade em estudo. O Dr. Fernando Peixoto foi muito feliz com a edição deste livro. Com uma bela apresentação – pelo que devemos congratular a editora - esta obra está escrita num estilo muito acessível e convidativo à leitura. E a obra vai mais longe do que pode supor o leitor comum, apresentando, além da narrativa sobre a vida e obra de Diogo Cassels, um generalizado leque de informação que a enriquece e a torna uma referência de consulta com os resumos biográficos de personalidades ligadas a Diogo Cassels, um Glossário de alguns termos e denominações usadas na altura, e um quadro cronológico final. Por isso, é muito de louvar esta iniciativa editorial do Dr. Fernando Peixoto e da Editora Estratégias Criativas. Faço votos para que tenha êxito no gosto e favor dos leitores e seja continuada com outras que o engenho e a arte lhes proporcionem. Muito obrigado.


Fernando Soares Bispo da Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana)


* Sophia de Mello Breyner Andresen in “O Jantar do Bispo” de ‘Contos Exemplares’, Figueirinhas, Porto, 2004, pág. 87.
** Eduardo Prado Coelho na crónica diária ‘ O fio do horizonte’ in Público, 20/02/06
*** Sophia de Mello Breyner Andresen in “O Jantar do Bispo” de Contos Exemplares, Figueirinhas, Porto, 2004, pág. 50.
****D. António Ferreira Gomes in Pórtico de “Contos Exemplares”,de Sophia de Mello Breyner Andresen, Figueirinhas, Porto, 2004, pág. 23.
***** Sophia de Mello Breyner Andresen in “A Viagem”, ibidem, pág. 108.

 
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