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A propósito do Tsunami PDF Imprimir e-mail

Tsunami: uma palavra de ressonâncias quase musicais que nos entrou na vida e nos deixou transidos, mudos ante o horror. O grande dilúvio do Génesis vem-nos à mente surgindo-nos em imagens que se confundem com as da profecia de Jesus, a grande tribulação, referida nos Evangelhos de Mateus e Marcos. Afinal, cenários de aflição, de sofrimento e de morte que a todos nos emocionam e atemorizam.

E, no entanto, perguntemo-nos: se não pensarmos em termos puramente numéricos, será menos intensa, menos dramática, menos verdadeira, a dor e a morte de um ser humano? Mas a magnitude de uma catástrofe como esta lembra-nos, afinal, de forma quase brutal, o que já sabíamos e tão facilmente esquecemos e gostamos de esquecer: a nossa absoluta vulnerabilidade. Todos sairemos deste mundo com maior ou menor sofrimento e, alguns de nós, quem sabe, de forma violenta e inesperada. Mas conhecer não é, como sabemos, responder à pergunta que, bem no fundo do nosso coração todos fazemos ante o grande sofrimento que por vezes precede a morte, seja ela isolada ou colectiva: "Porquê, Senhor?"

Uma interpretação mais literal do que espiritual de certas passagens das Escrituras poderia levar-nos a pensar num Deus cruel, e não apenas para quem escolhe rejeitá-lo mas também capaz de fazer descer a sua ira sobre seres inocentes. Ezequiel, por exemplo, um dos grandes profetas do Antigo Testamento, anuncia, falando em nome de Deus, a terrível mortandade que se seguirá ao segundo cerco de Jerusalém [588- 587 a.C]. Nessa profecia, segundo a qual a cidade vai receber o castigo por todas as abominações nela praticadas, o profeta vê "seis homens, cada um com o seu instrumento de matança na mão" [Ez.9:2] aos quais Deus ordena:"... não mostreis piedade matai o velho, o moço e a donzela, meninos e mulheres" [Ez.9. 5,6]. Visão, afinal bem descritiva da guerra, esse monstro que o homem alimenta ao longo da sua História e que sempre vitimou inocentes. Só que agora, nos tempos modernos, quanto mais "evoluídas são as nações, mais devastadoras se tornam as suas armas e sacrificam-se milhões de pessoas que nada têm a ver com a ambição humana sempre na génese dos conflitos. Bem podemos dizer que é cada vez mais evidente a grande verdade contida na extraordinária alegoria da árvore do conhecimento do bem e do mal [Gn. 2:17].

Considerando ainda o nosso "Porquê, Senhor?" é quase impossível não pensar em Jó - Jó, a figura central da bela e preciosa obra poética que é o livro que tem o seu nome. Afligido com a perda de todos os seus bens, dos seus filhos e por fim da sua própria saúde [úlceras malignas das plantas dos seus pés à cabeça] Job não sabe que a sua absoluta miséria provém de um consentimento de Deus, ou seja, de uma concessão divina ao ser satânico que se passeia sobre a terra e não pode suportar o homem que Deus destaca entre todos os outros: "íntegro e recto, que teme a Deus e se desvia do mal" [Jó 2:3]. "Toca-lhe nos ossos e na carne e verás se não blasfema de ti na tua face" [Jó 2:5], desafiara Satanás. Na sua dor e perplexidade Jó chega a amaldiçoar o dia em que nasceu e a interrogar Deus: "Tens prazer em oprimir?" [Jó1 0:3]. Mas afinal é a este mesmo Jó angustiado que, já no fim do livro, pleno de belos símbolos, Deus revela a glória da sua Criação e revela-se a ele, Jó, aquele ser frágil e dolorido, que vê passar ante os seus olhos as maravilhosas obras do Senhor dos Céus e da Terra e o ouve perguntar-lhe: "Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da Terra... quando juntas cantavam as estrelas da manhã e jubilavam todos os filhos de Deus?"[Jó 38:4,7] Deus falava-lhe da terra, do mar, dos céus, do mundo animal, de tudo quanto imaginou e a que deu existência deixando [curiosamente!] para o fim o temível mas magnifico leviatã [animal mítico, aparentemente semelhante ao crocodilo] que "se ri do brandir da lança" [Jó 41:29] e cuja força e imponência são pormenorizadamente referidas. Inteiramente rendido ao imenso poder de Deus e perante o esplendor da Criação divina, Jó confessa: "... proferi o que não entendia... eu me abomino a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza" [Jó: 42:3,6].
É como se dissesse, apesar do que acontecera [e estava ainda acontecendo] ao seu corpo: Eu não entendia - ainda não entendo - mas acredito que tu sabes ... eu escutei-te quando me mostraste que é teu "tudo quanto há debaixo do céu" ... portanto também o meu pobre corpo te pertence [Jó 41: 11]. Jó aceitou o que não entendia e todos sabemos como é feliz o fim da história.

Tal como Jó, também não compreendemos muitas coisas. Da existência do mal e do seu poder nenhum do nós duvida. Basta lembrar que a bela [e tão abrangente!] oração de Jesus que Jesus ensinou termina com a súplica: " e livra-nos do mal [ou do maligno, outra versão possível].

Frequentes como são as referências neo-testamentárias a esta sinistra entidade, para muitos de nós continuam misteriosas e enigmáticas, no seu sentido mais profundo, palavras como as que São Paulo escreve, por exemplo, na sua carta aos Efésios: " ... não temos de lutar contra a carne e o sangue mas contra... os poderes ... contra as hostes espirituais da iniquidade nas regiões celestes" [Ef. 6:12]. De acordo com versão mais moderna" A nossa luta não é contra inimigos humanos mas contra poderes cósmicos... sobre-humanas forças do mal existentes no céus". Mas como ousaríamos nós interpretar a forma como esses poderes maléficos se manifestam?

Os desastres ou catástrofes que chamamos naturais, como a que se deu no Sul da Ásia e que inspira estas breves reflexões, são fenómenos hoje compreendidos pela ciência em termos físicos de causa-efeito. Mas poderiam eles, alguma vez, ser explicáveis noutros termos, em termos teológicos?

"Porquê, Senhor", perguntámos nós. Jó dá-nos uma extraordinária lição de fé na perfeita sabedoria do seu Criador. Mas nós conhecemos hoje, na era da Graça em que vivemos, alguma coisa infinitamente maior e mais importante, insuspeitada nos tempos em foi escrito o antiquíssimo Livro de Jó: a vinda ao nosso mundo d'Aquele que, segundo o evangelho de João; "estava no princípio com Deus ... n'Ele estava a vida" [João 1 :2,4]. E ainda: "A mensagem que d'Ele temos ouvido e vos anunciamos é esta: "Deus é a luz e não há nele trevas nenhumas" [I João 1 :5]. Mas sobretudo "Deus é amor" [I João 4:16], esse amor tão belamente expresso e condensado no versículo que todos aprendemos de cor: "Deus amou o mundo de tal maneira que lhe deu o seu Filho único para que todo o que n'Ele crê não pereça mas tenha a Vida eterna [João 3:16]. Afinal só Jesus Cristo pode tornar bem reais para nós as palavras que citamos do Salmo 46 - porque mais do que intemporais e muito belas, sabemos, pela fé, que são profundamente verdadeiras, aconteça o que acontecer aos nossos corpos mortais.

Deus é o nosso refúgio e a nossa força.
Socorro bem presente na angústia.
Por isso não temeremos Ainda que a terra mude
E as montanhas estremeçam
No coração do mar;
Ainda que as águas rujam...


Isabel Freire


Versões citadas:
J.f.A. [ed. 1924] - J.f.A. [ed. 1968] R.S.V. [ed. 1953] Revised Standard Version N.E.B. [ed. 1970] New English Bible

 
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